domingo, 31 de julho de 2011

Rita e o Mar



Rita amava o mar.

Amava ao ponto de querer sentir todos os dias a areia fina brincando nos dedos, a brisa mansa lambendo o rosto, e o cheiro agradável que abraçava o seu olfato. E ela o fazia, esperava o Sol despertar e seguia segurando sandálias para deixar que o mar a tocasse. Esse a tocava começando pelos sentidos e molhando até a alma, e apesar da profundidade o Sol também brilhava por lá.

Rita irradiava em raios translúcidos até o brilho marítimo. Ela se fazia inteiramente mar, porque o amava, e amava tudo o que sentia ao senti-lo de perto. Porém, mesmo acariciando essa plenitude todos os dias, o amor que cultivava fora sucumbido por outro. Um amor de braços e pernas mais como os dela para fazer pegadas por aí enquanto os dedos se embaraçarem.

Era ele, um rapaz despreocupado que caminhava pela areia com olhos pregados no céu, por esse motivo vestido de acaso foi que a junção de sorrisos aconteceu. Troca mútua e desajeitada ocorrida quando ele esbarrou na Rita distraída que abstraindo a energia nem o notou. Ambos foram desconectados de seus laços devaneados. E numa procura quase ínfima os seus olhos por um instante desconectados ligaram-se sem muito trabalho. Pronto, tudo estava feito.

O amor que Rita devotava ao mar se apequenou perto do amor que aquele de sorriso aberto proclamou. Ele também trocou o céu azul pelos olhos brilhantes de Rita. 
Foi assim que ela deixou o mar sem remorso ou culpa, fazendo um adeus silencioso sibilar por entre as ondas desgostosas.

Então aquele que a acolhia sentiu-se traído, e sem julgar-se egoísta se fez vingativo.
Numa manhã veraneia a sua vingança chegou por correspondência, o amor que abrigava as varandas de Rita precisava partir em ofício cívico.
Partiria em um navio com data e hora marcada para a ida, e com volta desconhecida. A notícia fez até as menores estruturas de Rita desfazer-se em lágrimas com gosto de sal, a fazendo sentir a mesma dor sofrida pelo mar quando ela resolveu partir sem ao menos olhar para trás.

Por vingança desalmada o mar enfim levou aquele por quem foi trocado, e dentro de um suspiro esperançoso ele desejou trazer para perto a sua amada Rita. E ela voltou, mas não por conta dele, porque hoje ela o odeia a cada olhada perdida horizonte adiante; a cada vez que sente o cheiro, mas não o abraço; a cada gosto salgado que cobre a língua quando ela se aproxima demais.

O mar vestido em fúria latente corrompeu o amor que Rita abrigava, e hoje, quando ela vaga pela areia morna sente um nó no peito envolvido pela espera que não cessa.
Rita até cultiva uma culpa quase vã por ter praticado o desmazelo, mas essa não se pronuncia, porque as suas varandas antes inundadas pela paz trazida pelo mar, agora são ornadas por desamor àquele que levou para longe o seu amor, deixando em seu lugar um buraco desmedido dentro do peito que bate em descompasso. 

Rita amava o mar. Amava.


* 80ª Edição Visual - Bloínquês

5 comentários:

Jota disse...

Nossa, me emocionei lendo esse conto. Uma revira-volta tocante.
Você escreveu com uma delicadeza ímpar.. esse texto tem que ser vencedor.

Boa sorte!!!

. Nadine disse...

'Começando pelos sentidos e molhando até a alma' disse tudo! Foi assim que seu conto chegou até mim. Seu texto merece mesmo ser o vencedor, tô torcendo por você. Abraço forte!

Pedro Menuchelli disse...

Mai,
Mais uma vez, mais um texto maravilhoso em seu blog. Sabe, vendo esse amor de Rita pelo mar, começo a ter mais certeza que assim como eu existem pessoas que acreditam em um amor benigno mesmo com todas as diferenças existentes entre as coisas e as pessoas. É bom ver e sentir isso.

Me sinto muito feliz por saber que mesmo a meio de uma sociedade hipócrita, existem pessoas que dão valor a sentimentos e a toda forma de demonstrar o amor. É incrivel como você consegue fazer isso com uma certa facilidade. Nessa vida, tudo tem um porque, menos o amor. A gente simplesmente ama, simplesmente se perde em momentos, em palavras e em coisas que nos deixam felizes ao ponto de não perder a esperança. E é por isso que vale a pena viver. Vale a pena porque não sabemos do futuro, na maioria das vezes nem lembramos do passado, apenas vivemos o presente de uma maneira em que sentimentos não podem ser controlados pela mente.

Eu gosto de tudo por aqui e admiro demais a sua forma de escrever. Agora é minha vez de pedir desculpa pelo breve desabafo.. Um grande beijo e uma ótima semana. Se cuida, tá?

De seu amigo e leitor,
Pedro

C. disse...

Eu nunca poderia ser a Rita,
porque tenho pavor do mar,
e dizer que amo-o seria uma blasfêmia.
Mas tem amores que sentimos
nessa proporcao infundada também,
e que às vezes nos fazem
ver de forma diferente.

Bom fim de semana, querida Mai!
Sempre viajando nos seus belos textos, miga.

Thais disse...

Oii may, nossa to te devendo uma visitas hein!!! Parabens teu blog ta cada dia mais lindo!!! Sucesso querida. Saudades