sábado, 22 de outubro de 2011

Do passado que permanece

Olá JP,

Hoje faz exatamente oitocentos e sessenta e nove dias que eu estou aqui. Oitocentos e sessenta e nove dias depois do acidente que acabou com a minha vida, com a vida da sua mãe, com a sua, com a de tantas outras pessoas que foram mutiladas por um ato imprudente. Não espero que você me perdoe, eu não consigo me perdoar, o que eu fiz não tem perdão. Eu tirei a vida de pessoas inocentes, roubei o direito de um filho de ter um pai presente, de ter uma mãe, roubei o direito de tantas outras pessoas. E eu me culpo por tudo, sou um assassino. Me envergonho tanto por isso, mas infelizmente arrependimento e vergonha não fazem o tempo voltar até aquele dia chuvoso na estrada onde eu resolvi tomar alguma coisa para me aquecer, bem, não foi café, apesar de sua mãe ter insistido tanto para eu não beber nada com álcool. Ela estava muito preocupada com você, queria chegar logo em casa, disse que estava sentindo uma daquelas coisas estranhas que sempre sentiu quando alguma coisa errada estava prestes a acontecer. Eu briguei com ela, disse que ela deveria parar de inventar essas coisas, que ela tinha de se acalmar, pois eu não ia beber muito e iríamos chegar logo em casa. Eu estava errado, como sempre estive. Para ser franco, a única coisa certa que fiz em minha vida foi você.
Sei que está se perguntando por que eu resolvi lhe escrever depois de todo esse tempo, na verdade eu já tentei lhe enviar uma carta desde o primeiro dia que estou aqui, mas sou um cretino covarde, estou rodeado por papéis preenchidos por tentativas fracassadas porque eu nunca achei as palavras certas para redigir, e não achei porque na verdade não há palavra certa alguma. Bem, dessa vez os seus olhos alcançam essa caligrafia torta, pois eu sinto muito a sua falta, e é tanta que já nem cabe aqui em mim ou nessa cela imunda, mas vou te privar dos detalhes sórdidos e te dizer que eu queria apenas te ver crescer; queria ver as suas notas no boletim da escola; queria te ensinar a andar de bicicleta; queria empinar aquela pipa colorida que iríamos fazer juntos em um dia de verão; queria olhar você dormir tranquilamente enquanto tinha um sonho despreocupado; queria poder ser o seu pai, e não um terrível fardo pesado demais para qualquer um. E mesmo que você não vá me perdoar nunca, eu quero dizer que sinto muito, e que espero com todas as minhas forças que você jamais seja o homem que eu sou.

Com saudades,

Aquele que deveria ser o seu pai.


* 64ª Ed. Cartas - Bloínquês

6 comentários:

Taynná disse...

Meu Deus!

De tirar o fôlego, o modo como você vai enumerando as situações, os fatos, os fracassos, nossa! Sua escrita é tão perfeita que faz meus olhos brilharem, e agora falo como professora, rs...
Sabe, me lembrou aquele filme 'Sete Vidas', já viu?

Beijo!

Pegadas do Coração disse...

Apesar de ser um texto triste, mas possui uma bela lição de vida!
Parabéns, você sempre me surpreende!
Abraço!

Ana Paula Ribeiro disse...

Olá linda, passando aqui para avisar sobre a sorteio de um layout que está acontecendo no Heart Dreamer, corra lá e se inscreva, você pode ser a grande vencedora. Beijos ;*
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Jaynne Santos disse...

Olha os comentários da Jay ressuscitando... rsrs.

Mai, que carta mais triste e emocionante. Confesso que quando cheguei a ler a metade do último parágrafo já me escapavam algumas lágrimas. Não é novidade nenhuma essa sua magia em saber conduzir perfeitamente as palavras, como se você fosse uma profissional da magia tirando o coelhinho chamado literatura da cartola e a gente ficasse se perguntando como você conseguiu fazer isso.

Muito bom mesmo!
E eu já consegui matar um pouquinho da minha saudade daqui!

Beijos.

Sabrina Andrade disse...

Muito bons os textos!
Estou te seguindo aqui ♥
Bjs *:

Gabi Carvalho disse...

Oi! Estou aqui para comunicar que o blog Truths of a Heart, abriu vagas para a Equipe do blog.
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