terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Das cores


A caixa de lápis de cor escorregou por seus dedos finos, no chão da sala as cores rolaram como se estivessem pressa; como se quisessem sair dali o quanto antes.
A menina fez uma careta e curvou-se para recolher suas cores. Enquanto guardava os lápis na caixa foi percebendo uma ponta quebrada aqui e ali. É sempre assim, quando alguma coisa sai de nossas mãos para o mundo, ela nunca retorna como era antes.

A menina, inconformada, apontou todas as pontas com o seu apontador. Mas de nada adiantou, foi surpreendida pelos lápis desgastados, menores que antes, mudados.

Na semana seguinte ela comprou outra caixa de lápis coloridos, abandonou a anterior, chateada com aquela desventura. Entrou em casa apertando a caixa contra o peito, com cuidado demasiado e preocupação veemente.

Durante os dias que se seguiram ela coloria seus desenhos segurando firme seus lápis, não permitiria que eles rolassem de suas mãos; não permitiria que eles fossem entregues ao mundo. Mas para a sua decepção, as pontas se desgastaram mais uma vez, diminuídas pelo uso. Ela não entendeu, não os deixou cair, cuidou com tanto apreço, e mesmo assim precisou do apontador mais uma vez, pois os seus lápis já não eram mais os mesmos.

É sempre assim, pensou num dia longe daquele, quando não deixamos que toquem o mundo, o mundo acaba as tocando, e o tempo providencia as consequências numa sequência  ilegível, cabe a nós substituir as cores, ou eternizá-las do melhor modo possível, vivendo-as. 

7 comentários:

emyhouseplus disse...

Mas,é sempre assim. A menina teve que aprender que as coisas se vão, que se acabam, que desfalecem.

Suzi
http://suzilima.tumblr.com/

Pâmella Ferracini disse...

A flor caiu, mas, não caiu porque não era real, e sim, porque chegou sua hora.

Beijo linda, belo texto.

Pedro Menuchelli disse...

Maiara,
Simplesmente acho que esse tenha sido um dos melhores textos que li por aqui. Eu estou sem palavras pra explicar o quanto gostei dele. De toda forma, nossa vida é assim. Temos que nos acostumar com as "perdas" de pontas, com o desgaste dos nossos lapis e, assim, ir trocando por novos que podem deixar a nossa obra de arte mais bonita, melhor.

Me perdoe pela falta de palavras. Ainda estou sem ter o que falar.

Um grande beijo!

Deyse Batista disse...

Achei sua metáfora incrivelmente doce e verdadeira. Te balançar o coração!
Beijos.

Arianne Carla disse...

Cabe a nós tanta coisa, não é, Mai? Que temos medo de tanta consequências e decisões... Eu tenho que dizer que achei uma doçura, um gostar terno pelo seu texto. Como sempre, né? Fica com Deus, flor.

Mero Esmero disse...

Adorável e sensível reflexão sobre as cores da vida!

Fraterno Abraço!

Adna Martins disse...

Que linda!