sábado, 21 de janeiro de 2012

Porque essa também sou eu

Abstraio a dor alheia e não consigo evitar. É parte de mim, sou assim, sem alterações. Não aceito mudanças também, sou do tipo que precisa ligar a luz antes de subir degraus, a certeza do próximo é um fiasco. Veja bem, do próximo degrau, e não do próximo passo.

Abstraio o sofrimento como uma esponja vazia, a diferença é que não tomo todo o conteúdo pra mim, ele permanece lá, mas é como se fizesse as malas e viesse pra mim também, se duplicasse. O clone fica comigo. Porque a ferida dói mais na pele deteriorada.

Hoje mesmo estava passeando com o cachorro, ele já me conhece muito bem, mapeou os meus gestos e já faz um carnaval quando percebe que o que vem a seguir é um convite para um passeio. Hoje ele foi enganado, não ia sair com ele. Mas ele me escoltou, observando todo o trajeto que faço antes de levá-lo, eu disse para ele que não, mas não consigo olhar seus olhos tristes por muito tempo. Ele me convenceu, saltando em minha frente ganhou o seu passeio.

Na rua, enquanto ele se distraía com o seu olfato apurado, eu observava a senhora simpática de sorriso bom de ouvir descendo de uma ambulância. Sua aparência não era a mesma, a alegria estava apagada, não completamente, mas ofuscada a ponto da minha percepção denotar. Sorri pra ela, meio sem jeito, ela segurava o marido pelo braço, o pobre senhor que gostava de fazer piadas agora carregava uma piada de mau gosto nos ossos frágeis que praticavam uma locomoção desengonçada. Os passos inseguros, como se houvesse uma escada escura à sua frente, e o pior, não havia como acender a luz. Me aproximei, perguntei como a senhora estava, ela fez um gesto que pairava entre o sim e o não. O senhor  procurava o braço dela e se apoiava numa muleta. Senti pena, mais que isso, suguei sua dor. Me encolhi diante da cena, e me aproximei mesmo assim. Ele me reconheceu, não conseguiu esboçar um sorriso, mas lembrou meu nome. Sorri pra ele, disse que eu estava bem e perguntei baixinho se ele estava bem também. Ele não respondeu. Não me ouviu, ou não conseguiu dizer nada, me mostrou. Foi se arrastando devagar até dentro da casa, a senhora ao seu lado, forte como uma rocha, cansada sim, mas a gente percebe quando alguém não está disposto a entregar os pontos. Voltei pra casa, o meu cachorro não gostou do passeio curto, mas leu minha expressão e logo entendeu ao seu modo. Ele não absorvia a dor alheia, só a minha.

2 comentários:

Taynná disse...

Mai,
Sabe que me sinto tão em casa com essa letra georgia? É quase meu espaço aqui, de tanto que gosto!
Queria não ter esse poder também, essa coisa de puxar pra mim tudo em volta. Se estou em um lugar legal minha alegria fica evidente, se estou com alguém triste aquela tristeza vai brotando em mim, cavando espinhos e matando a alegria. Se for amigo meu então, a coisa desanda mesmo, tomo a dor, visto a capa.
A gente pode se encontrar e ser feliz pra sempre? Assim eu vou me aproveitar da sua alegria e você da minha, que tal?

Beijo!

Jonas Gonçalves disse...

Nossa, faz tempo que eu não venho nesse paraíso, mas de tanto tempo acho que já posso chamá-lo de baú, mesmo tendo poucas coisas que me lembram os seus sentimentos...

E como sempre as suas palavras ainda são as mais adequadas para nos fazer dormir tranquilos ou abrir um grande sorriso no rosto. Ter tudo isso de volta para nós, parece até perturbador, mas a certo ponto você recebo alguma atenção, mesmo de pessoas desconhecidas.

Adorei o texto.