domingo, 15 de janeiro de 2012

Só pra fazer o Sol caber num sorriso


"Bisbilhotar é errado." Eu disse isso para o Vinicius quando o encontrei certa vez mexendo em minha bolsa. Ele estava no meu quarto, os olhos atentos enquanto ele remexia tudo ali dentro. Quando ouviu minha voz quase caiu para trás, gaguejou alguma coisa e saiu correndo. O procurei pela casa, mas não o encontrei, ele sempre foi ótimo em brincar de se esconder. 

Só o achei mais tarde, na verdade ele havia saído de casa, o vi correndo da porta da sala para a cozinha segurando uma sacola de papel. Fui atrás dele com a paciência arrastando no chão, ele estava ofegante, sentado na mesa e me olhando com olhos de culpa. À sua frente estavam jujubas coloridas, desenhava na mesa um pedido de desculpas: "Me desculpa mamãe, eu só queria jujubas." O menino sabia como me ganhar; sabia como se livrar de uma boa bronca. Porque não há como alguém poder brigar com uma criança de nove anos que desenha na mesa um pedido de desculpas, ainda por cima, com uma caligrafia torta. Ou não há mesmo, ou o meu coração poderia ser substituído facilmente por uma gelatina que eu nem iria perceber.

Eu sorri pra ele e o abracei, esqueci que ele estava bisbilhotando atrás de umas moedas no fundo da bolsa. Ele se inclinou na mesa e brincou de sugar as jujubas com a boca. Nós rimos durante a noite inteira.

"Bisbilhotar é errado". Lembrei da frase dita para meu pequeno há duas semanas enquanto eu arrumava a sua mochila da escola. Foi a presença de papéis amassados que me chamou a atenção. Papéis amassados sempre escondem algum segredo ou algo totalmente irrelevante, e eu estava disposta a descobrir.

O primeiro papel não havia nada, e eu franzi o cenho, desapontada. O segundo tinha algo rabiscado com letra bem miúda.

Querida Lulu, seja a minha namorada. Gosto de você, e quero que todos possam nos ver de mãos dadas no recreio.

Vini.

Eu senti ciúmes da Lulu, ciúmes de mãe. E ao mesmo tempo me senti culpada por estar invadindo o espaço do Vinicius.
Hesitei ao olhar o terceiro papel, ainda mais amassado que os anteriores. Mas não me contive, a curiosidade sempre foi um grande defeito.

Lulu, se você quiser pode ser a minha namorada. Eu ia gostar de te escrever.

Vinicius.

Percebi a indecisão nas palavras quase apagadas no papel. Meu filho herdou essa característica de mim, a indecisão constante. Minha amiga Íris costumava dizer que não devemos pensar muito quando vamos tomar alguma decisão que exija coragem, fazemos e pronto. Se der certo deu, se não der tentamos recolher o que sobrou de nossa dignidade. Eu nunca consegui seguir esse conselho, só uma vez, e sou muita grata por isso. O Vinicius é fruto desse feito impensado.
Parti para o próximo bilhete, a curiosidade aumentando a cada palavra tímida.

Quer ser mais do que minha amiga?

Vinicius.

A decisão do meu filho em pedir a Lulu em namoro oscilava, parecia que ele queria muito, mas não sabia como fazer. Tinha medo; medo de ouvir um não e tão cedo se ferir por essa dor de gente grande. Continuei olhando os papéis, eram muitos.

Lulu, que namorar comigo? Porque eu gosto de você mais do que gosto de jogar videogame.

Vinicius.

-

Lulu, eu gosto mais de você do que gosto de empinar pipa. Namora comigo?

Vinicius.

-

Querida Lulu, eu gosto de você. Você gosta de mim?

Vinicius.

-

Lulu, eu não quero ser mais seu amigo. Quero ser o seu namorado.

Vinicius.

-

Lulu, eu não quero ser só o seu amigo, quero ser também o seu namorado.

Vinicius.

-

Lulu, eu sou um idiota e não consigo te escrever!

Vinicius idiota.

A esse ponto a caligrafia estava mais concisa, ainda tinham pequenas pontinhas de grafite escorrendo das letras. 
Não achei mais bilhetes, e passei o resto da tarde me perguntando se ele havia mandado algum para a Lulu. Mais tarde, ele entrou em casa sujo e suado do futebol, o olhei como no dia que ele me olhou ao mexer em minha bolsa. Ele entendeu no mesmo instante.

- Oi mamãe. O que tem de errado?
- Oi Vini. Não há nada de errado.
-Mamãe... Nós sabemos que há!
- Vai tomar um banho, depois nós conversamos. Tudo bem?
- Tudo bem então.

Eu estava sentada na mesa, fiz um pedido de desculpas com os seus papéis amassados. Não parecia o certo a ser feito, mas eu não sabia como dizer a ele que eu invadi a sua privacidade daquele jeito. Os olhos dele me fuzilariam, e eu não resistiria.

Ele entrou na cozinha sacudindo o cabelo molhado, parecia um cachorrinho após o banho.
Na mesa à minha frente os papéis formavam o meu pedido.

Me desculpa, filho. Eu não sei mais o que dizer.

Ele me olhou surpreso, recolheu os papéis sem me dizer palavra. Foi para o quarto e depois voltou em passos tranquilos.

- Eu não queria ter feito, mas fiz. Me desculpa mesmo, foi a curiosidade.
- Não deveria ter feito, mamãe. Eu ia te contar.
Naquele momento me senti a pior pessoa do mundo, a mais invasiva. Abaixei os olhos e mirei os pés, como criança depois de fazer algo de errado.

- Não tem importância, eu também sou curioso. – disse me olhando com piedade. Ele estava me perdoando, senti em seu toque delicado e em seus olhos doces.
O abracei forte e ele retribuiu o abraço. Depois de um longo tempo de silêncio ele se afastou e mudou a expressão, parecia preocupado.

- O que houve, querido? – perguntei tomando a preocupação pra mim.
- Eu estou com medo da Lulu dizer não.
- Você mandou algum bilhete?
- Coloquei um na mochila dela quando ela estava no recreio... Uma cópia exata do primeiro que escrevi. Mas agora já não estou certo disso.
- Vini, se você gosta mesmo dela, deve dizer. Mesmo que ela possa dizer um não. Se você não arriscar nunca vai saber.  Você fez o certo, querido. E eu duvido que ela dispense alguém assim como você,  só se ela fosse uma porta. – disse como se fosse fácil. Como se eu tivesse feito isso muitas vezes. Ele sorriu meio sem graça e me abraçou mais uma vez.
- Amanhã ela vai me responder, eu acho.
- Ela vai. Ela deve estar doida pra segurar a sua mão.
- Mãaaaae! Não precisa repetir o que leu, poxa! – disse enquanto suas bochechas coravam. Eu fiz uma careta e o fiz cócegas. Meu filho já era um homenzinho. 

No dia seguinte chegou abanando acima de si um bilhetinho colorido, com um sorriso que guardava o Sol.

- Querido Vini, há muito, mas muito tempo eu já gostava de gostar de você. Pensei que você nunca iria pedir! Já pode segurar a minha mão no recreio.  

Com muito amor,

Lulu.


Ps. Obrigada, as jujubas estavam muito gostosas.

Um comentário:

Taynná disse...

Mai,
Senti uma coisa de Clarice no seu texto, o tempo todo parecia um conto de Felicidade Clandestina sabe, parecia que ele caberia perfeitamente lá!
Achei tão delicado, tão poético sabe, uma coisa de aprendizado de limites que a gente sempre ultrapassa. E o amor tão estampado e escondido em cada bilhete... Adorei viu?
Obrigada pelo carinho, por ser tão especial, por cuidar de mim... Obrigada mesmo mesmo mesmo!
Amei o texto e meu nome ali embaixo fez com que eu vá dormir melhor!
*-*