quinta-feira, 12 de abril de 2012

Verão de 1995


A porta rangeu apática. Luíza suspendeu os olhos sem vontade, para ver se daquela vez era alguém, além do vento. Colocou uma expressão cansada no rosto, era a decepção velha com cheiro de mofo.  Mais uma vez. Até quando? Já não se perguntava; ou se perguntava e já nem percebia. Estava tudo tão igual. Presa ao avesso. Mais uma vez.

A persiana gasta sibilou nostalgicamente, um barulho de chuva no telhado fez um suspiro pesado estalar no peito. A sala escura, a TV ligada no noticiário local. O homem na TV falava de uma tempestade rigorosa, mas Luíza não se importava com o tempo lá fora, nem ali dentro. Estava à mercê de tudo, do mundo.

Às vezes sentia falta de si, mas só nos momentos insalubres. Quando a memória  dos tempos atrás sussurra em seus ouvidos ela os cobre com as mãos desajeitadas, mas não adianta, está tudo atravessado nela mesma.

Verão de 1995. Quente. O calor vinha de tudo, mas eram os braços que mais a aquecia. As risadas atônitas ao mundo. Entregues. Entregue. Porque foi singular desde o começo, só ela não sabia.

No inverno tudo mudou. Chovia, e a chuva não deu trégua. Ela esperou. E esperou. Nem sequer uma bandeira branca apareceu à cima de si. Trégua, ela pedia. Implorou.
As pessoas diziam que tudo era assim mesmo. Tudo vem e vai e a vida continua, não é mesmo? Para ela, não. Difícil é quando uma pessoa vai e leva o outro consigo, deixa a casca, um poço fundo, uma porta que só sabe ranger apaticamente. Deixa.

Luíza balançou a cabeça tentando afastar os fantasmas do adeus de um só. Olhou para a TV, um acidente na via principal havia deixado cinco pessoas feridas. Ela não se importou. Quis desligar a TV, mas seria obrigada a ouvir os próprios pensamentos gritando alto. Levantou-se assim mesmo, cambaleou até a porta entreaberta. Ainda. Pra sempre.

Um vento frio cortou seu rosto pálido. A chuva ricocheteava no asfalto. Doía sentir as gotas gélidas contra o seu rosto. Já estava cansada daquela sensação. Chuva. Lágrimas. Chuva.
Deu alguns passos trôpegos e já estava na rua. Sem saber exatamente o que estava fazendo ali. Mas não importava. A importância de tudo escorreu por suas mãos, foram para longe, talvez estivesse com ele, ou além.

Os dedos dos pés enrugados pelo frio, a sensação do asfalto contra sua pele era cortante e ao mesmo tempo cálida. Cansou. Já estava cansada há muito tempo. Deitou-se no chão à espera da sua bandeira branca. Deitou-se à espera do Verão de 1995. Mas já era 2000.


113ª Edição Visual - Projeto Bloínquês

5 comentários:

Jean Almeida disse...

Que gostoso de ler, que falta fez um xícara de chá aqui como para me acompanhar.

Jean Almeida

Arine-san disse...

Muito bom... Adorei, na verdade. Profundo, com beleza, vai nos puxando lentamente para o final. Alias, reli o último paragrafo umas vinte vezes... Minha parte preferida, rs.

Parabéns pelo texto. ^^
Bjos.

Bárbara O. dos Santos. disse...

O bom é que dá para snetir a mesma falta, a mesma falta de sentir alguma coisa a espera d ealgo que ficou para trás.Acho que fazemos isos o tempo todo, a cada dia matamos algo dentro de nós a espera da vida retornar para o momento em que aquilo fora despertado.

Gostei muito do texto e concordo com o rapaz lá em cima, senti falta de uma bebida quente e de um tempinho frio...Muito bom mesmo.

Beijo.
=*

# J disse...

Adormeci também enquanto esperava o verão. Mas o meu foi 2010 e quando vi acordei 2012.

Vanessa disse...

Lindo, nos faz pensar o que aconteceu com Luíza, quem se foi, o que ela perdeu...