quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dos devaneios turvos



Fui para o canto beirando a janela aberta, irritada com o nariz vermelho, os olhos entreabertos, papeis amassados nas mãos. Um resfriado inconveniente por conta da mudança de estação. O Inverno sempre começa assim pra mim, talvez porque eu fale tão bem do calor para ele, só pode ser mesmo despeito. Fiquei ali, encolhida no parapeito, observando o jardim iluminado lá embaixo e o telhado da velha catedral lá em cima, um quadro agradável, é verdade. 

Uma cruz no topo da torre me chamou a atenção, estava coberta pelo manto escuro noturno, mas se fez visível apesar do tamanho discreto. Naquele instante pensei que diante da essência a estrutura física faz-se dispensável. E não discutirei significados ou afins, é tudo muito relativo e subjetivo, nos olhos de cada um cabe um berço de interpretações mútuas. E naquele instante em meus olhos coube a imparcialidade do tempo, e ao mesmo tempo a beleza guardada pelo velho .

Uma mão de tinta nova pra quê? Deixemos o limo escorrer pelas arestas acidentadas pelo antigo, não lutemos contra o tempo, embarquemos no barco sem vela e deixemos que nos leve, nos ensine que aceitá-lo não é submeter-se aos seus caprichos, mas emaranhar-se em suas mãos para que um dia possamos enxergar as rugas das nossas. Sejamos otimistas, porque mais vale as rugas do que a interrupção apressada dos dias. Mais vale o limo escorrendo por tudo . Recuso-me a aceitar uma segunda mão de tinta, a primeira me basta.

4 comentários:

Däkar Monsalbant disse...

Adorei sua narrativa. Inusitadamente me fez lembrar o livro Drácula de Bram Stocker pelo tom circunspectamente romanceado. Se bem que não li o livro todo, desisti, estava demasiado deturpando... Um nobre Vampiro.
Você está de parabéns pela inteligência com que descreveu seu sentimento. Atenciosamente, Däkar Monsalbant.

d-kar.blogspot.com.br

Bruna Lima disse...

Uau, incrivelmente admirável, magnifico. Parabéns.

vell disse...

"Recuso-me a aceitar uma segunda mão de tinta, a primeira me basta."

Sempre você né baixinha? ;*

Arianne Carla disse...

A intensidade e o meu respeito sempre se farão presentes aqui. Simplesmente admirável, como toda vez que visito o seu blog. No final senti a pintada de ousadia vindo dentro de mim e um sorriso no rosto.

Beijos, Arih.