quarta-feira, 27 de junho de 2012

Questionamentos temporais



Enchi o bolso de palavras e fui emudecida pelos passos que sucumbiam o resto de chuva no asfalto. Das perguntas que me alcançaram, poucas foram as que tiveram verdadeira importância, mesmo assim ouvi todas, porque perguntas são sempre perguntas.

- Que horas são? - me perguntou uma moça com olhos desinteressados.
- Não sei... - respondi mostrando os pulsos. Ela não se deu o trabalho de observar meu gesto, apenas virou os calcanhares e ligou para alguém, ouvi sua voz um pouco distante enquanto dizia para cabeleireira que iria se atrasar.

- Que horas são? - me perguntou uma senhora com olhos murchos.
- Não sei... - respondi mostrando os pulsos. Eu estava economizando palavras, não queria esvaziar o bolso. Ela olhou meus braços com curioso interesse, pousou o olhar em minha mão direita, no dedo anelar, um sorriso triste emoldurou seu rosto. Quis gastar palavras com ela, o seu silêncio me convidou.
- Algum problema? - perguntei.
- Nenhum, minha jovem. – disse, tirando os olhos de meu anel e varrendo os braços das pessoas ao seu redor.
- Por que essa demora? - resmungou baixinho.
- Como disse? - me atrevi. Ela me encarou quase assustada.
- O trem das onze ainda não chegou, e não suporto mais essa espera.
- Mas... - engoli em seco. Não era da minha conta. Ela ficou me olhando com olhos gentis, me incentivava. "Vá em frente!" Quase pude ouvir.
- Mas a senhora acabou de chegar. - disse timidamente.
- Eu sei, minha filha. Mas a minha espera é antiga, faz aniversário hoje. - olhou para o céu, e eu acompanhei o seu olhar, mas não via o mesmo que ela.
- Quantos anos ela faz?
- Vinte e um. - respondeu com voz arrastada.
- Eu tenho vinte e um. - só disse porque ela se calou, e sua voz me lembrava uma cantiga antiga de ninar, era boa de ouvir.
- Eu tinha a sua idade quando a minha espera começou. Ah, como doeu... - seus olhos encheram d'água. Por um instante quis me aproximar um pouco mais, deixar sua cabeça cair em meu ombro, ou segurar sua mão enrugada. Ela parecia tão frágil... Mas ela enxugou os olhos rapidamente e levantou com uma agilidade inesperada quando ouviu o apito do trem soar ao longe. Senti seu perfume de flores enquanto ajeitava seu vestido estampado.
- Acho que são onze horas agora. - disse ao seu lado. Ela se virou e sorriu alegremente, pude ver naquele sorriso resquícios de um passado distante.

As pessoas começaram a descer do trem, os olhos da senhora estavam inquietos, não ousei penetrar naquele manto de desassossego que a envolvia.
- É ele! - disse num tom animado enquanto se direcionava em direção às pessoas que se amontoavam aos poucos na estação, mas antes virou para trás e me mostrou o seu anel na mão esquerda.
- Espero que não espere tanto quanto eu, minha querida, mas se acontecer valerá a pena. Sempre vale.
Vi quando ela se jogou nos braços de um senhor com um casaco cinza, parecia que havia rejuvenescido quarenta anos em alguns segundos. Os dois ficaram ali abraçados, eu deixei a estação, o bolso leve, o polegar roçando o metal em meu dedo, não queria admitir, mas eu era aquela senhora.

3 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Nossa, que surpresa no final.
Lindo, parabéns!

Mariana Leal disse...

Seu blog é lindo, muito fofo mesmo*0* parabéns!! Já estou te seguindo amada =))

Convido voce e suas leitoras a conhecer meu blog :]

http://toobege.blogspot.com.br/

Beijinhoooos ;**

Juliana Diniz disse...

Olá Maiara! Tudo bem?
É a minha primeira vez por aqui e fiquei bastante encantada com seu texto atemporal. Peguei-me imaginando tal cena na estação. Refletindo sobre a danada da espera. Ah! Já aprendi muito sobre ela, hoje só tão paciente que ás vezes acho que pode ser defeito, mas de todas as vezes que esperei, valeu a pena quando chegou ao fim.

Beijos, Ju.
fez-se-flor.blogspot.com