sexta-feira, 13 de julho de 2012

Saudade do que não vivi



Hoje senti saudade de coisas que não vivi, só idealizei por um tempo bastante considerável de minha vida, e para ser sincera, de vez em quando ainda idealizo. Na verdade senti foi muita falta de alguém que nem mesmo conheci, esse alguém se formou em uma parte de minha mente pelas palavras ouvidas, resgatadas aqui e ali.

- A sua barriga é igual a dele. – disse minha mãe certa vez. Uma herança peculiar essa: uma barriga. Fiquei imaginando assim a sua barriga, igual a minha.

- Os olhos eram verdes. – disse em uma outra vez. E esses fiquei imaginando, porque meus olhos são castanhos, não pude vislumbrar os seus nos meus. Uma pena.
Minha mãe ia descrevendo coisas que eu queria ter visto de perto, situações que ri enquanto eram contadas, e que também me causaram uma pontinha de dor, porque nenhuma delas teve a minha participação.

- Seu avô era muito nervoso, por isso se foi. Uma vez subiu numa árvore para cortar... (alguma coita de que não me lembro)...  e seu cabelo ficava escorrendo por sua testa, ele soprava e soprava, mas o cabelo voltava a cair, seu avô pegou o facão que trazia consigo e cortou a parte do cabelo que lhe perturbava. – ela riu. – Ele sempre foi muito nervoso. - completou.
Fiquei imaginando as histórias que iria me contar, as risadas que iria me trazer, seu tom de voz, como seria? Quis mesmo ter seus olhos verdes concentrados em mim, enquanto me contava qualquer coisa que fosse.

- Ele nunca me batia, e também não deixava mãe me bater. – isso ela disse várias vezes. Imaginei o tipo de caráter que tinha um homem interiorano criado sobre regras duras, desenhar asas para a filha que tanto amava.
Uma vez ela me disse que sonhou com ele, quando brigou com a irmã, o seu rosto estava impassível.
- Eu a perdoei, nunca sonhei com papai daquele jeito.
E eu quis ter sonhado tantas vezes, ainda quero, mas nunca aconteceu. Só conheço o seu rosto de um modo subjetivo. Uma vez o vi numa fotografia, em preto e branco e em borrões do tempo.
- Ele já estava doente aí. – disse minha mãe com voz chorosa. Queria ter visto mesmo a sua postura de avô, não queria ter observado uma foto em que o guardava já fragilizado

- Ele lia a bíblia todos os dias. Usava óculos, e a bíblia já era gasta, de tanto que lia. O imaginei num canto, com expressão serena enquanto passava os dedos pelas páginas fina do livro sagrado.

- Ah, papai só tomava banho quente. Gostava muito! - Foi um detalhe pequeno, mas pra mim era algo grande, ajudava a me lembrar dele como se tivesse feito parte de minha vida de um modo material. E talvez essa fosse mais uma herança, gosto de pensar assim, porque gosto muito da águe quente escorrendo pelas costas.

- Uma vez teve uma festa lá no interior, eu queria muito ir, mas papai não deixou, ele não deixava essas coisas, era ciumento demais. Então, quando faltava pouco tempo para a festa começar, eu tinha a intenção de ir escondida, mas ele me veio com uma bandeja cheia de peixes para tratar lá na cachoeira, imagine que raiva senti... Eu fui, tratei tudo bem rápido, depois tomei um banho e me arrumei, fui para a festa ainda cheirando a peixe. Depois de pouco tempo, ouvi a voz de papai: - Maria! Maria! Cadê você, Maria? Congelei. Papai tinha ido lá me buscar, eu saí correndo pelos fundos, escondendo o rosto. Cheguei em casa ofegante, minha mãe já sabia, não disse nada. Foi uma das raras vezes que apanhei de papai, e mesmo assim, era aquela surra penosa. – eu ri imaginando tudo, porque depois que passa esse é o jeito que encontramos para tirar proveito da situação.

Devo dizer que minha saudade nada diminui perto desses meus recortes, e bem, eu disse que não o conheci, é verdade. Nunca o conheci do jeito comum, mas de tanto ouvir histórias suas, me coloco vez ou outra em alguma, onde ouço tais histórias em suas versões, por sua voz seja lá qual for, com seus olhos verdes alegres grudados em mim enquanto eu me desfaço em risos do outro lado.

Sinto mesmo muita falta dele. 

3 comentários:

Arianne Carla disse...

Que mágico! Às vezes também sinto essa saudade, sinto saudade do meu avô que nem mesmo conheci, mas ele me conheceu quando bebê. Minha mãe sempre comenta os planos que ele tinha para comigo, e isso me entristece um pouco. Queria ter feito muita coisa com ele. ):

Um beijo, Mai.

Karine Tavares disse...

Teu blog é ótimo, parabéns!

Vem conhecer o meu:
leiakarine.blogspot.com

Marcelo R. Rezende disse...

Escrevi, certa vez, um texto sobre meu avô. Porque também não o conheci, mesmo que o tenha conhecido fisicamente. O enterrei quando eu tinha vinte nos de idade e nada sabíamos um do outros, só que ele era meu avô e que eu era seu neto. A distância não impõe barreiras, assim como a morte também não. O que nos impede de conhecermos quem amamos é a falta de interesse.

Seu texto mostra claramente que seu avô é figura presente na sua vida, mesmo que já não esteja com você.

Lindo texto, Maiara. Sensível. Gosto.

Beijo!