quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Senhora de si



A menina tinha a testa grudada na janela embaçada por seu hálito quente, vez ou outra passava a manga do casaco no vidro, ao seu lado uma silhueta esguia fazia o mesmo que ela.

- O tempo tem um jeito engraçado de andar, não tem? - perguntou a menina sem tirar os olhos da janela.
Sem esperar palavra, ela continuou.
- Olha lá, ele às vezes corre tão rápido que nem consigo ver suas pegadas, mas às vezes ele fica ali, divagando, parece que nem quer sair do lugar.
A mulher ao seu lado concordou com um aceno ínfimo de cabeça.
- Vê aquela moça lá? - ela apontou com o nariz. A mulher fez que sim.
- Eu sempre a observo, antes a via por aí sendo arrastada pelo tempo. Ele a puxava pela orelha como um urso velho. Ela parecia tão insegura com suas mãos sempre dentro dos bolsos. Mas agora está tão diferente...
- Mudanças rápidas acontecem na velocidade de um susto. - a mulher ao seu lado, enfim falou.
A menina assentiu.
- Ultimamente eu a vejo com um caminhar diferente, as mãos balançando ao lado do corpo. Às vezes apressada, outras, num ritmo mais sonhador. Hoje ela parece apenas preocupada, deve ser o futuro, mais uma vez. Ele tem a mania de colocar caraminholas na cabeça da gente. Mas a expressão dela mudou, ela está mesmo mais valente, a gente percebe isso na postura, tá vendo? Ela está erguendo a cabeça, vê? Vivendo no presente.
- Sim, eu a vejo. Há pouco tempo aprendeu a desfazer as malas com muita eficiência, você acha que já se acostumou com as mudanças?
- Não. Se acostumar com mudanças ela nunca irá, mas ela as aceita, as vive. Ela mudou. Olhe como caminha junto ao tempo, às vezes o ignora e ele franze a testa em desaprovação.
Ambas sorriram sem desviar os olhos da moça lá fora.
- Agora ela é senhora de si. - disseram em uníssono. E a moça lá fora sorriu, pensando: "senhora de mim".

Um comentário:

V. disse...

Nunca mais vim aqui né Mai? Mas o blog continua lindo como sempre! Beijos