sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma apresentação informal ao eu de sempre



O pequeno pássaro via seus irmãos alçarem voos longos e intermináveis. O pequeno pássaro ouvia vozes que dizia o quanto ele era mirrado e frágil, não voaria nunca, permaneceria naquele ninho até que algum réptil faminto o devorasse. Tais palavras o assustava, às vezes o impulsionava um pouco, mas quando via todo aquele mundo aos seus pés sentia medo e então recuava. Os dias correram sem que ele tentasse voar, sempre trêmulo, e como havia se acostumado com as palavras sobre o seu fracasso como pássaro, sentia-se conformado e em um estado de quase felicidade. Seus irmãos levavam comida para que ele não morresse de fome, mas as visitas estavam cada vez mais raras.

Os dias veraneios estavam se despedindo, e as brisas mornas se tornavam mais frias e murmurantes, seus irmãos pássaros disseram que não poderiam levar mais comida, migrariam, e apesar da insistência cansada para que ele tentasse voar não se obteve resposta, o pássaro encolheu-se com suas pequenas asas e manteve-se rígido diante das expressões aterrorizadas de seus irmãos. Fechou os olhos, e quando os abriu seus irmãos sumiam no horizonte.

A brisa morna agora era uma corrente fria e cortante, o pássaro tremia em seu ninho.  O vento uivava por entre as árvores e o seu medo dera lugar ao terror. Fechou os pequenos olhos esperando que tudo acabasse rápido. O vento soprou mais forte e o acertou em cheio, arrastando seu ninho para a ponta do galho, e num instante desesperador se viu em queda livre em direção ao mundo que o aterrorizava todos os dias. Caindo e caindo. A queda parecia não ter fim, sentiu uma sensação diferente dessa vez, não era medo ou terror, era o vento entre suas penas, percorrendo o seu corpo, estava se sentindo leve.

O passarinho que precisava de um empurrão para perceber o quão afável era a liberdade agora batia as asas freneticamente rodopiando no céu, brincando de felicidade. O pequeno coração pulsando forte no peito, um piado fino, e aquilo que se formava em seu bico era um sorriso? Ninguém sabe dizer, mas se perguntarem ao vento ele provavelmente dirá que aquilo era um apelo a si mesmo. Um reconhecimento. Uma apresentação informal ao eu de sempre.

5 comentários:

Fer Castro disse...

Incrível como o medo pode nos travar para a vida e é ela mesma quem, às vezes, arranja um jeito de nos sacudir e dar o seu jeitinho para que enfrentemos, enfim... Belíssimo texto, Maiara! Adorei!

Nina disse...

Voar é a essência do passarinho, assim como é vital para o ser humano. Necessitamos de impulso para as nossas realizações.
Abraços.

Déborah Arruda. disse...

Somos passarinho? Parece que sim. Ainda que a forma de olhar seja uma escolha. Vi assim. Me vi assim em instantes da vida.
E é belo enxergar a forma como se supera e alça voo!
Belo, Maiara!

Marcelo R. Rezende disse...

Que lindo. Abri um sorriso aqui vendo como uma metáfora tão bela como essa pode nos atingir diretamente.
Belíssimo!

Verônica Reis disse...

Mai, em minha opinião a fonte está perfeita! É tão fofinha, que da mesmo vontade de ler. Te indiquei em um meme literário lá no blog vê lá: http://veronicareis.blogspot.com.br/2013/02/meme-literario.html

bjs!
Ps. o texto, lindo. Você continua surpreendendo Mai, parabéns!