terça-feira, 14 de maio de 2013

Vai ficando no caminho


De repente a gente vê que perdeu 
ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua
 que vai ficando no caminho.

Tenho olhado pela janela com olhos aflitos e cheios do desconhecido. As pernas bambeiam na corda bamba do mundo. Sabe-se lá onde eu consegui tanta dúvida para caber em mim. Sabe-se lá onde eu consegui tanta crença para sustentar a fragilidade do que já não é como um dia foi. E tudo é mudança. E tudo é onda que vai e vem nessa instabilidade voraz de infinito. Fiz-me o que, afinal? Fiz-me quem quando me reprimo coisa?

Carrego no peito um tambor calejado de palpitações. E quanta coisa cabe ali? Porque sempre inundo tudo, e já nem sei o que tenho derramado mais, mas sei que me trasbordo todos os dias. E que procuro sempre o mar para deixar-me leve e mole num colo que esconde as lágrimas, porque sabe ser tão salgado quanto. E é na língua que pesa tudo o que não se diz, todas as luzes apagadas que esconde alguém dentro de lençóis e dores solitárias. Cada um conhece o peso que se leva por aí, e mesmo que não todo ele, mas pelo menos o sentir nos ombros que caem; que doem; que se deixam esparramar na cama cansada, mas sempre fiel em cumprir seu acalanto.

Nem desfio demoradamente sobre a nostalgia ou pretérito que de tão perfeito ainda deleita, as lembranças fogem dos dedos que caçam inquietos sua presa, ficam ali, tombando no interior, no imaterial, no subjetivo de tudo. E eu que gosto tanto de entrelinhas, me desespero na falta de zelo, de toque, de clareza que a ausência do tocar proporciona. De certo, há dias que dormir numa lembrança boa trás os melhores sonhos, mas o gosto que fica na boca ao acordar me inquieta, é um não-ficar, um não-ser-mais, um não-poder-tanto que tamborila dentro da gente.

Me castiga o espelho questionador de tudo, que incapaz de um mergulho molha os pés na superfície e reclama da água sempre imprópria. Sabe lá quando e onde tomo tento das coisas, ganho jeito, e acerto nas extravagâncias, nas expectativas que vaidosas sempre se vertem de inalcançáveis. 

3 comentários:

Nina disse...

Sendo assim, mais vale seguir em frente que lamentar o passado. o coração pode continuar transbordando, mas de emoções positivas agora.
É só tentar.
Abraços.

Arianne Barromeü disse...

Concordo com a Nina, mas, de certa forma, estava com saudade de ler essa sua poesia tão rica, Mai. Muito lindo, mesmo.

Beijos

Verônica Reis disse...

May, acredito que todos nós em algum momento na vida passa por um momento como esse. De caos interno. Você quer abrir de tudo, se isolar até conseguir se equilibrar novamente. Mas como Braian me disse uma vez "Tudo que você precisa está dentro de você", cabe a nós avaliar, ouvir nosso coração e colocarmos nossa energia em equilíbrio. Acredito que só assim conseguimos nos desvencilhar do passado, guardar boas lembranças e construir novas.

Um beijo,
Humble Opinion