domingo, 13 de outubro de 2013

Permanência




Eis o estado da permanência das coisas: um soluço, uma dança, um olhar que mais ninguém percebe. O quão permanente se pode ser? Perguntava-se o velho esgueirado na esquina. O mundo girando à sua volta, o relógio fazendo barulho, ritmo de buzina e pneu no asfalto, uma lágrima nas rugas.

O vento tirou o chapéu puído para dançar. O velho o observou rolando pela calçada até os pés da menina. O quão permanente pode ser uma fração mínima de tempo?
A menina segura o chapéu e sorri, o chapéu segura a menina e sorri. Quantos anos cabem naquele sorriso? Poucos. - imagina o velho.

O relógio não se cansa, os sapatos dançam na pista. Passos e mais passos dentro do olhar do velho, dentro do sorriso da menina. O quão permanente é a imagem que se distancia da rotina? O quão permanente dá-se a notoriedade dessa imagem? Que permanência cabe em mim, ao ver a menina que sorri ao colocar o chapéu sobre os fios grisalhos do homem velho enfeitando a esquina do tempo?
Eis o estado da permanência das coisas: a eternidade efêmera do sentir. A permanência vive, morre, e renasce nos detalhes singelos do mundo.  

Um comentário:

Caroline Araújo disse...

Talvez seja extremamente difícil notar a permanência das coisas no cotidiano, mas tenha total certeza de que a permanência das suas palavras em quem as lê é plena, pois elas preenchem vazios: vazios dos olhos, do peito e do coração. Grande beijo!