quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Desalinho



Uma música antiga preenche meus vazios, mas permaneço silenciosa. Observo sua silhueta que se petrifica diante da janela aberta, e lança um olhar nostálgico além do meu alcance. A paisagem passa despercebida por seus olhos, o que você fita ninguém mais vê, exceto eu, que me entristeço por ter notado.
Volto ao quarto bagunçado, tão semelhante ao nosso retrato. Coisas fora do lugar, irregulares, mas nem sempre foi assim. Porque você sabe que a vontade de permanecer como era antes é uma ilusão doce para nos fazer dormir em paz.

Me pergunto por que transbordamos tanto, por que um sentimento não pode permanecer intocável pelo mundo, por que tivemos de abrir a janela, meu bem? Ah, já sei, nada vigora se não nos darmos porções de liberdade. Mas que triste, não soubemos como lhe dar com aquele plural unificado que tanto nos orgulhávamos de tê-lo, nosso nós.

Você passa o peso do corpo para a outra perna, a música volta a tocar em meu interior, estava quase sorrindo, mas você se movimenta e percebo que nada é estático. Sua respiração parece regular, amena, quase calma, e noto que estou sozinha naquele lugar.

Não guardo rancor ou amarguras. Na noite passada eu mudei minhas antigas concepções de lugar, é claro que uma ou outra só serviram para me fazer perceber que tinham de permanecer onde estavam, e foi o que eu fiz. Mas tudo bem, a janela está aberta, você titubeia, e eu suspiro, porque mesmo que você permaneça, não permaneceremos. Há um desalinho que nos envolve densamente, talvez um dia nos encontremos casualmente, talvez o acaso nos surpreenda com outros acasos, mas hoje não. Hoje estamos ouvindo músicas que não soam na mesma frequência. Estamos em tempos diferentes, e enlaçar as mãos seria um apelo profundo à dor.

Tudo bem, não nos atropelemos mais, vamos fingir certa força e seguir. Não direi adeus, não direi nada, sem palavras estou saindo pela porta da frente, pois a janela já escolheu seu passageiro.

Um dia quem sabe você retorne, eu retorne, nós retornemos. Mas hoje não.  

Um comentário:

Déborah Arruda. disse...

Fica pra amanhã. Hoje eu só ensaio a part(ida).