sexta-feira, 28 de março de 2014

Sentença



No alto do devaneio onde despertam os sonhos, observo pelo vitral a ilusão que passa serena, vestida de pessoas que se movem sem olhar pra lugar algum; pernas que se equilibram no fio fino da vida. Ao fundo o som das baladas do velho sino na igreja de arquitetura gótica. Me arde na pele as palavras de moderada agressão, como uma vontade de profanar a dor de um jeito certo. Não existe jeito certo para a dor.

Me aproximo mais do vitral, cores pálidas invadem o lugar onde estou, o dia esvaindo pelos dedos finos daquela gente sem nome. E eu observo, enquanto de algum lugar sou observada e levada à julgamento, os sinos outra vez, e outra vez, dentro de minha mente agora o som ressoa mais alto. Alguém cruza os olhos com os meus, mas só por um instante, uma fração de segundos apenas. Nada acontece. Não me movo; me comovo com a oceanicidade desaproveitada das coisas. Estão todos à margem, batendo com força seus pesados martelos, apontando dedos, não veem nada. Os olhos estão fechados para dentro, os dedos dos pés sentindo a frieza da água e se afastando. - O oceano sou eu! - grito. Mas não há movimento de pernas nessa direção. Não há pronunciamento que não seja os sinos e os martelos ressoando ao longe.


Um comentário:

Déborah Arruda. disse...

"a ilusão que passa serena" aproxima do peito o ressoar dos sinos e martelos. Longe tem sido aqui.
Lindo, moça!