domingo, 6 de abril de 2014

Quando nasce um Universo - Spectum


Enquanto debruçada à beira do lago dos mundos, refaço trajetos inteiros sobre vivências passadas, presentes e futuras. Imersa num plano sinestésico entre as dicotomias temporárias, presa e livre equilibradamente, reflete-se na íris fragmentos do imaginário histórico, enraizados essencialmente em nervos cardíacos. Assim envelheci e rejuvenesci por muitas vezes.

Dentre passagens e efeitos colaterais, escolhi algo para observar com mais afinco. São meus olhos jovens sem medo do mundo em que habitam; uma coragem secular dentro de uma alma pulsante, menina de tudo percorrendo sonhos não suportados pela escuridão, por isso emitiam luz pura enquanto projetavam sombras em outras arestas. Adiante se erguem aprendizagens adquiridas pelas experiências abissais, muito mais arrebatadoras quando cravadas na carne, nos ossos, marcadas a fogo e gelo no cerne estrutural.
Ardem. Tremulam. Todos os medos, os erros, os sopros de felicidade, as desistências, abstinências, egoísmos, decadências, todos os sentimentos puros, idealizados, e os mais putrefatos também - todos em movimento contínuo. Era uma questão de ótica, enquanto olhava-me no topo, a estrutura se movia em movimento oposto (e ao contrário também), eu estava ao pé da escada novamente, e novamente eu me movia em direções desconhecidas.

De volta à superfície do lago, as imagens se distanciam e perdem a nitidez, agora encaro a face que me abriga no plano em questão. Observo algumas cicatrizes se desfazendo gradativamente, outras sendo desenhadas com cuidado, e depois as memórias planando nas fases de minha consciência. Uma lágrima, minha imagem oscilando no lago, há um brilho secular em meus olhos, tão antigo quanto o universo pelo qual sou concebida.

Inicia-se assim outra caminhada, queimando no céu um ciclo de fogo que se eterniza em cinzas carregadas gentilmente por uma brisa morna. Dedos encorajadores pesam em meus ombros. - Um pé depois do outro. – ouço numa voz calma e firme. Outro ciclo abre-se ao longe, enquanto caminho, minhas pegadas em brasa marcam a circunferência do tempo, sendo também marcadas por ele.   

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