domingo, 1 de junho de 2014

Carta não escrita



Ah, menino, veja onde estamos agora. Todos esses caminhos que escolhemos nos afastando a cada sol nascente, todos esses desencontros... Quem diria que nos tornaríamos reféns do silêncio? Engolindo à duras penas o penar de já não sermos.

Quem diria que o adeus se firmaria tão cheio de convicção? Quem diria que de tão fácil aceitação você se vestiria? Quem diria que tão facilmente você desistiria? Bem, menino, eu nunca que diria. Mas cá estamos, péssimos hospedeiros, você me bagunçando, eu te bagunçando por inteiro. Mas o esquecimento não tarda, viu? Tudo vai se apaziguar, nessa vida nós nos acostumamos com tudo, por mais que arda, por mais que queime, o hábito vai nos alienar à ausência um do outro. E não pense que digo isso sem dor, porque estou em pedaços, você me desconfigurou da cabeça aos pés, e eu redescobri que no plano glacial eu me saio bem, mas apesar de, eu continuo, porque todos os dias esperam o firmamento de uma essência que os definam.

Ah, já nem sei que pronome de tratamento usar, vejo seus sorrisos por aí, seu semblante ausente, acho que sou um pouco masoquista, fico reforçando a realidade, apertando seus dedos em volta de meu coração, cada vez mais forte. Mas ninguém nunca morreu de saudade antes, não é verdade? E depois de tanto tempo, e tanto tombos, estamos de pé.

Sabe, eu ofereci todas as tentativas que me cabiam, mas você corria longe, e eu sempre tive passos curtos, você sabe, minhas palavras não te alcançaram, mesmo sendo essas a nos unir no início de tudo. No fim, não me culpo, não o culpo, prefiro que não falemos de culpa, que não apontemos as deturpações que provocamos. Não tem mais sentido, não é mesmo? Ficar pensando que poderia ser de outro modo é só mais um jeito de nos ferir. Estou certa de que as cartas tímidas jamais morrerão, e que o passado permanecerá vivo em nossas memórias, mas mesmo que a partida nos parta, a acolhemos, e numa canção de ninar um pouco bucólica deixamos dormir as lembranças do dia que fomos um para o outro mais que dois forjados desconhecidos.  

3 comentários:

Déborah Arruda. disse...

Tu não sabes como isso bateu em mim. Obrigada, estou indo ao cardiologista!

Fer Castro disse...

Maiara, que texto infinitamente lindo! Parece que cada palavra está exatamente no seu lugar, sem riscos de dúvidas ou ambiguidades. Por que será que a dor, transformada em poesia, soa tão linda e tão comum?

Gabriela Freitas disse...

Primeira vez que visito aqui e já me sinto em casa. Quem deixou você roubar minha história assim, guria? ♥♥ Enquanto eu te lia, me lia, sabe? Tão bom quando isso acontece.
E é, ninguém nunca morreu de saudades, mas as vezes parece que o coração não vai aguentar não, viu.

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