quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Enquanto eu derramo


“O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos” (BAUMAN)

Vagava numa noite sem lua. Sem nome. Um pouco nua. Tinha uma memória gasta sem grandes desassossegos. Uma ideologia fraca. E o queimar de rasas indagações na pele. Os ruídos das edificações borravam o cenário. Sombras e luzes apáticas acendiam e apagavam; ascendiam e evocavam minhas projeções alienadas. Antigas sindicâncias abandonadas. O eco de palavras de outrora ainda vibrava com uma força relutante, resistindo. Uma mudança de cenário, os passos tamborilando sem pressa o assoalho de minha mente, me desfazendo em exageros. O meu nome em um murmúrio do tempo escorrendo esguio pela porta de minha vaidade. Que mundo difícil para os sensíveis...

Eu já nem sei como me comportar diante desses vagões de sonhos desperdiçados, nada aqui sabe como me comportar igualmente. Eu estou transbordando, recorrendo às palavras, pintando a etimologia do meu ser, atravessando a rua de mim mesma. Até que ponto eu consigo ler histórias de outrem? O quão profundo eu consigo adentrar os olhos daqueles que me cercam? E se eu tocar teu âmago, que reação eu devo esperar? E se não for proposital, que expectativa dissolverá? O que fazer com essa tempestade em mim? O que fazer com essa tempestade que eu sou? E quando me encontrarem dançando dentro da violência de ventos agressivos, vão entender meu propósito? Vão me alcançar? Vão me traduzir em poças rasas ou em mar profundo? O quanto irão mergulhar?

Eu devotei, no intrínseco repouso de minha alma, a sede por histórias de estrelas, fiz de minha companhia um porto pra eu mesma atracar. Não me aconselho a ninguém, mas espero ser alçada por voos brandos - em bando; espero ser lembrada. Sustento um subterfúgio para as interrogações, tantas versões de mim mesma impregnadas em meus movimentos. E enquanto eu derramo, num sorriso ou num alento, transito visceralmente dentro dessa cíclica passagem dos tempos. 

2 comentários:

Anônimo disse...

'realmente, tudo está nos olhos de quem vê; noites sem luas, nomes, ruídos, sonhos, ventos, tempestades... Talvez a lua esteja lá, escondida, lua nova. Nomes não são importantes para quem se reconhece no sentimento. Ruído, é apenas a música do mundo moderno esperando para ser compreendida. Sonhos são desejos esperando para se realizar. Os ventos que me trazem tanta alegria quando levantam minhas pipas e baloes e tempestades que me ensinam tanto sobre a beleza dos raios...não os aconselho para ninguém, mas tenho absoluta certeza de que meus dias foram melhores nos ventos e tempestades das noites sem lua, enquanto sonhava, embalado pela melodia ruidosa da cidade...

Simone Lima disse...

Que linda essa tua escrita, Maiara. *-

Bjooo'o