quinta-feira, 12 de março de 2015

Do chão ao céu de giz

Entardecer. O céu mudava de cor gradativamente, eu mantinha meus olhos no horizonte, esperava capturar o momento exato no qual o sol toca o mar. Tinha secado lágrimas duas ou três vezes, era um final de tarde incrivelmente triste. Um homem sentou ao meu lado, amaldiçoei o momento. Mais uma lágrima nasceu em meus olhos compenetrados naquela pintura em movimento, não pisquei, não relutei, deixei que ela saísse por sua vontade; não sustentei expressão de tristeza ou de qualquer outro sentimento. O homem me olhava pelo canto do olho, eu esperava que ele não se enfiasse em meu silêncio.

- Às vezes o amor é uma confusão, não é mesmo? - disse ele.

Uma moça sentada à beira mar observando o sol se pôr, com certeza estaria em apuros amorosos, um coração partido, um drama, um dilema não resolvido: provavelmente era essa a  tradução que ele tinha para mim naquele momento. O que fez com que eu sorrisse sarcasticamente.

- Uma mulher chorando enquanto olha o mar é um atrativo perfeito para alguém que, observando-a de longe, vê o retrato da fragilidade; um pequeno animal que precisa ser salvo, algo do gênero. Mas eu tenho uma notícia pra você: eu não sou essa mulher. Não hoje.

Ele me encarou. Eu mantinha minha posição inicial, e me perguntava o motivo pelo qual pessoas desconhecidas sempre tendiam a se aproximar de mim. Eu me certificava, frequentemente, de manter certo resguardo, uma barreira que prezasse minhas individualidades banais, mas dia após dia eu era surpreendida por situações fílmicas como aquela. Era irritante.

- Sei... coração partido, com certeza. Mas não precisa se mostrar hostil, a vida é assim mesmo, o amor é desse jeito, nós nos quebramos sempre esperando alguém que seja capaz de nos consertar, é chato, cansativo, mas é assim.

Certo. Ele era o tipo de pessoa teórica, se agarra às palavras como se isso fosse o salvar do mundo, talvez o fizesse, mas proclamar assim essas definições inúteis sobre o amor era algo deprimente. Ah, porque ele estava ali? Eu estava extremamente incomodada com sua presença, e agora eu sentia vontade de romper, definitivamente, a barreira do silêncio com a crueza das palavras.

- Quantas vezes você já disse essas palavras em frente ao espelho? Quantas vezes tentou se convencer sobre a importância dessa busca por outras pessoas? Você vai citar agora frases revisitadas de autores clássicos? Quantos clichês eu vou precisar ouvir se der continuidade a essa conversa? Francamente. Você é um desses homens que se dão muita importância, se colocam em um pódio de irregularidades, se acham incrivelmente diferentes - algo como não caber em lugar algum -, mas, no fundo, você só é uma réplica perfeita de alguém sentimental demais, um tanto sensível, imaturo e desavisado. Sim, nós queremos caber em lugares, ser vistos, notados, esperando que nosso lado mais escuro atraia a curiosidade de alguém com uma vela na mão. Mas o vento sempre vem, a vela sempre apaga, e o que você faz? Se torna alguém amargurado ou segue em frente? Nesse momento, provavelmente você pense que eu me tornei a amargura personificada, mas estou seguindo em frente, e essa é a única coisa que você vai saber ao meu respeito. Esqueça esse papel que você se predispôs a encenar, no fim das contas esses conselhos baratos são de você para você mesmo, então tente se convencer verdadeiramente sobre isso, e depois, quando só restar o silêncio, volte aqui e sente ao meu lado, eu permitirei que você chore uma ou duas lágrimas se você respeitar a minha atmosfera silenciosa. Essas são minhas palavras pra você, gosta delas? Essa é a imagem clichê de alguém quem teve seu pôr do sol interrompido inutilmente. Todo esse falatório lhe agrada? Não acha que se assemelha a um estorvo? Pois eu acho.

Algumas estrelas no céu. O sol já havia ido embora. Ele afundou o rosto na penumbra, parecia ter raiva, começou a chorar: soluços, seu corpo balançando. Fiquei ao seu lado até se acalmar, quando só restou o silêncio, eu me levantei e comecei a andar. Ele permaneceu sentado na praia, se sentindo incrivelmente triste pelo soco de realidade que eu lhe dei. Talvez não fosse mesmo a sua realidade, eu não tinha o poder da verdade absoluta, aquela era a perspectiva de uma estranha um tanto irritada, e se ele se comoveu por tão pouco, eu estava ao menos um pouco certa.

Um comentário:

Simone Lima disse...

Pode ser que ele tivesse tido razoes de estar ali, melancolico, mas ainda querendo ver luz no fim da nostalgia. Quem sabe pelo que as pessoas passam e carregam no peito, se nao elas mesmas, inclusive, nós.
Adorei o post, li sem piscar, até porque sinto grande afinidade com a dor.

Bjoo'o