segunda-feira, 2 de março de 2015

Sobre o não caber e outras vírgulas

Quantas noites atravessei até chegar aqui? Eu sei, não é grande coisa quando você contempla esse universo de estrelas logo acima de sua cabeça. Você pode arriscar um sentimento de inferioridade se estiver um pouco triste, mas nesse instante sinto como se pudesse abrigar todo esse brilho secular em meu interior, dentro de uma eternidade. É verdade, me sinto nostálgica essa noite, um pouco perdida, observando o lugar onde cresci, eu vejo os passos ligeiros na areia, ouço as risadas exageradas, sinto inveja do quadro desapegado a qualquer tipo de preocupação: as miragens de meu passado. Quando foi que fiquei tão melancólica? As pessoas que cresceram comigo, as histórias que vivemos - que me pertencem, são meus tesouros mais preciosos.

Mas o que há com esse desconforto? Incapacidade de aquietar-se em um canto, e placidamente ver a vida passar. Eu não consigo ser a Lídia do Pessoa, não há sossego em fitar o rio enquanto ele passa, as flores no regaço estão despetaladas, eu quero mergulhar - estou mergulhando. Uma centelha de falsas previsões. Ficando entediada com meu próprio rosto no espelho, com a rotina, com o cotidiano, mas isso é estar viva, certo? Talvez eu esteja inebriada pela grandeza secular dos astros celestes, minha cabeça gira: círculos onde as interrogações dançam, não estou cabendo nesse agora. Ah, eu passei muito tempo enterrando os meus pés na terra, fechando portas e janelas, ventava tão forte lá fora, a chuva congelava meus pensamentos, meus ossos doíam, eu estava envolta nas cores pálidas de meu conforto imaturo. Agora sinto o caminhar com minhas próprias pernas, encarando o frio, dançando na tempestade, cometendo erros proporcionalmente reversos às minhas aspirações, me amaldiçoando, me perdoando, discretamente me envergonhando para logo me orgulhar de mim mesma. Isso é viver? Tudo bem. Eu tenho me permitido aos absurdos, aos excessos; tenho me inclinado ao egoísmo intenso de caber em minhas aspirações: por mais tolas que possam parecer. Eu mesma - por mim mesma. Um fluxo distorcido ao meu ritmo; Alguns estorvos para pesar nos ombros; Um coração calejado - mas pulsante; Uma alma vibrando inquietante; Um desejo profundo de me converter aos instantes. Talvez uma postura crônica irremediável, um tanto insensata, tenho em mim uma mala arrumada, sempre disposta e pronta a sair. Uma criatura entre infinitas criaturas, se agarrando às suas particularidades como se sua vida dependesse disso, e, pra ser honesta, depende. 

Um comentário:

Simone Lima disse...

Quando foi que ficamos tão melancolicas?
Esse texto me fez ficar pensativa, e nostálgica e temerosa pelo futuro, porque sou muito apegada ao passado.
Gostei demais! Você me tocou!

Bjo'o