sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sobre os mundos que sustentamos



Um homem inquieto contemplava o velho lago, a água agitada pelo vento fazia com que a imagem concebida tremulasse. Imaginava ali a própria vida, as preocupações rasas dentro das ondulações: a conta de luz por vencer, ligações telefônicas pra fazer, amigos pra visitar. As questões existenciais ficavam no fundo, sendo encobertas pela inquietude, demoravam a vir até a superfície, e alcançá-las era sempre um mergulho solitário. 

Esse moço que olhava para o lago era olhado de volta, mas não sabia, e sua ignorância era o seu maior trunfo, porque os momentos em que se sentia feliz eram aqueles de completo não saber. 

Um lago inquieto contemplava o velho homem. E tudo se movia dentro dele; tudo se movia do lado de fora. E quando ele partisse, e seu perfume ficasse naquela atmosfera, e a marca do seu corpo na grama, seria tudo o que iria sobrar, ninguém saberia de sua presença, de seus devaneios, de seus inquéritos. E são esses os momentos que erguem mundos habitados apenas por nós mesmos; são os lagos da vida que contemplamos e que nos contemplam de volta.

Um comentário:

Danilo Ramos disse...

Talvez ele não seja inquieto. Talvez não estivesse preocupado com coisas rasas. Talvez suas preocupações existenciais não estivessem na profundeza do lago, mas no fundo de si. Talvez seu estado de solidão fosse da presença de pessoas. Talvez ele tenha fugido de todos e de tudo para poder se encontrar.
Talvez as ondulações no velho lago provocasse uma reflexão sobre fluxo da vida.
Talvez ele soubesse que para sustentar os mundos que habitam em nós é preciso fazer uma conexão com quem fomos, como quem viremos a ser e com quem somos agora.
Talvez ele quisesse cultivar uma vida interior. Talvez ele tenha esquecido todos os espelhos na antiga casa, e o lago era a única forma de ver a si mesmo.
Talvez ele tenha desistido de fugir e de mentir pra si mesmo e resolveu encarar a própria presença. Talvez ele tenha resolvido contemplar a vida. Talvez ele seja o único com a coragem de mergulhar em si mesmo e voltar à superfície com a alegria de ser que é.