sábado, 8 de agosto de 2015

Aonde tu fores eu flor


Vem chover por dentro, meu bem. Se quiser ficar, tem que parar e observar meu temporal, pra ganhar os dias de sol eu me bordo em tempestade. Aqui nesse cais não ancora barco não, vou te dar uma forte impressão do que é felicidade, sorrir em teu sorriso, fazer de teu peito um abrigo, revirar tudo inteirinho, porque não sei chegar sem fazer barulho. Mas vou embora em silêncio, viu? Quando sentir minha falta, serei mulher na estrada, já não sei pertencer por muito tempo, desaprendi chorando dores antigas, reabrindo feridas, nem sei mais amar sem covardia. Às vezes revisito amor antigo só pra sangrar um tantinho, pra sentir lá no fundo meu vilão preferido reclamar o que é seu por direito. E então ouço o Jeneci falar sobre como nós somos feitos pra acabar; sobre a presença de uma pergunta que deixa o coração da gente mudo, e aí me transborda uma nostalgia circular, fico assim por uns dias até cansar, até deixar a roupa da alma secar. Mas não tenha medo não, faz com que eu queira ficar, me deixa chegar onde ninguém mais chegou, gosto de alcançar o inalcançável, dos detalhes, do improvável.   

Olha, se vier que venha com tudo, e me ensina como é mergulhar com vontade, porque molhar os pés tem me dado uns calafrios na espinha, vem de lá de baixo, sobe pelo dorso e faz os olhos lacrimejarem, mas lágrima nenhuma cai. Se vier, meu bem, me faz chorar em desespero pra logo em seguida acalmar os meus desassossegos, pra me amparar em teu leito, plantar em meus olhos brilho de sonho. Mesmo que eu não tenha volta, se vem chegando que termine de chegar e não me traga metades, sinta vontade de estar seja lá aonde eu estiver. Sei que sou assim um tanto egoísta, quero sempre, quero agora. E se me quiser que me queira logo - me queira inteira - me queira nessa hora. Tenho pressa, meu impulso acelera o pulso, uma emergência; um absurdo.

Então, ainda tem certeza sobre querer se aventurar? Porque eu quero que você se aventure. Minha disposição está acenando, procurando sua mão, borda do abismo e eu lá equilibrando a razão e o sentir. Ou me empurra ou me sopra. Vem sacudir as certezas comigo; vem desafiar precipícios. Estou bem aqui no não lugar, já vejo sua silhueta lá longe meio tímida... É só se aproximar sem medo de se queimar. E aonde tu fores, meu bem, eu flor.  

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