segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ensis

Ao meu amigo viajante do tempo, que passou os últimos meses numa fenda atemporal na Nebulosa de Órion, recolhendo memórias de estrelas. 

Querido amigo, 

Não faço ideia a quem devo endereçar essa carta, provavelmente terei um problema com o correio intergaláctico, mais uma vez. Bem, apesar disso, você sempre encontra minhas palavras, então não vou me preocupar muito. 

Sabe, eu quero ouvir uma história sua sobre estrelas e luzes que não se apagam nunca, mesmo que estejam mortas. Porque eu estou um pouco perdida agora, sei que você me disse para não gastar muito tempo com coisas mortais, mas eu estou fadada ao erro, mesmo que depois eu me arrependa e tente consertar tudo do meu jeito. Eu sei que você vai dizer o mesmo que disse da última vez. "Você se preocupa demais, moça, as coisas nascem e morrem, e nós tropeçamos muitas vezes no meio desse percurso entre vida e morte, e você pode se levantar todas elas, e fazer diferente do que tinha feito antes. Você pode esquecer o conceito de tempo por um momento? Finja que não existe nada além do agora. E viva. Eu sei que você fez de novo, se afundou no próprio coração e mente, isso não é ruim, mas também não é bom. Você gosta de meio termo? Sei que não. Então aqui vai o meu presente pra você, a última memória da última estrela que conheci: enquanto houver luz eu permanecerei essencialmente digna de habitar o meu mundo. Você entende um suspiro de esperança? Pois espere em si mesma, lá no fundo, onde ninguém mais chegou, você espera copiosamente por sua chegada. Você é essencialmente digna de habitar o seu próprio mundo e, infinitamente, o meu. Saudades, moça, quando eu voltar quero a sua testa sem rugas para eu beijar."  


Foram palavras de luz, essas suas. Eu me apoiei nelas por um tempo, mas cedi. Acho que gosto de ferir a mim mesma. Talvez eu tenha uma inclinação à práticas masoquistas, o que você acha? Olha, não fica muito chateado com isso, você deve respirar fundo agora, às vezes acho que o conheço mais do que a mim mesma. Franziu a sobrancelha, não foi? (risos) 

Moço, você é meu segredo mais antigo, e o melhor de todos eles. Mas não quero ser muito sentimental agora, porque faz muito tempo que não descanso no teu ombro, e isso tem feito muita falta. De verdade. E sei que não posso ser egoísta e pedir para que fique da próxima vez que uma estrela cadente passar por minha janela, mas esse foi meu desejo imaturo por muitos anos. Mesmo que nunca tenha se realizado, eu sei que você fica um pouco quando vai embora, e que eu fico mesmo quando você acena de longe um silencioso até logo. Mas o tempo que espero se demora a passar, e você nunca vem, e eu me perco lá fora, agindo estupidamente, levando meus princípios à falência. E isso é muito ignorante de minha parte. Eu finalmente percebi que devo seguir caminhando da melhor maneira que eu puder, com minhas próprias pernas, sem me permitir o lado vil das coisas, porque quando você está lá fora as ondas escuras te arrastam se você não for muito forte, e mesmo que você tivesse dito inúmeras vezes o quão forte eu era, eu me sinto como uma folha seca sendo levada com um vendaval violento. Mas isso não é sempre, sabe. Há dias em que eu acordo decidida a mudar um monte de coisas, e agora... agora eu estou polindo uma dor antiga, roendo o laço de uma vida dentro de outras vidas. Ah, moço, você está com aqueles olhos, não é? Me dizendo que devo fazer o necessário para me sentir bem. E que o necessário para me fazer bem começa pela dor inenarrável. Está certo. Não posso me agarrar sempre num passado longínquo, foi isso o que você disse, lembra? Sobre o agora. 

Querido amigo de sempre, me desculpe pelas delongas, e obrigada pelas histórias de estrelas tão sábias. Espero que não demore muito pra vir até aqui me dizer o quanto de luz tenho comportado; espero mesmo que venha dividir suas experiências de longas viagens interestelares. Andei me ocupando com todo o tipo de gente, e andei me enganando sobre aquele amor que já morreu há anos. Eu fiquei um pouco neurótica, tentando agregar o valor das estrelas nesse sentimento que apenas pertence ao passado, então volte logo e me diga o quão errada eu estive, ou apenas afague minha cabeça, porque estou cansada, e tem um mundo inteiro pesando em minhas costas, mas não quero que você o carregue por mim, só preciso que segure minha mão por um tempo que eu não consiga contar.

Com demasiado afeto,

M42.   

2 comentários:

Anônimo disse...

Você nem sabe o quanto habita o meu mundo, e o quanto suas palavras me movem. Não importa quanto tempo tenha ficado do lado de fora se do lado de dentro você ainda mantém certas existências. Espero brevemente me tornar um viajante que inspire palavras suas.

Interessante que notei em sua carta que você assina como M42, um dos nomes da nebulosa de órion... nem preciso dizer mais nada.

Mariane Lobo disse...

É sempre bom buscar alento na eterna viagem da luz das estrelas. É bom lembrar que somos poeira do universo. Suas palavras flutuam.