quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Enquanto triste

Saí de casa pra ir na padaria, nada muito fantástico ou extraordinário que devesse ser relatado aqui, mas então percebi que foram só alguns passos para ter olhares furtivos em mim. Olhares de lobos famintos por pequenos e inofensivos cordeiros tristes. Foi então que percebi que os homens adoram mulheres tristes. Na verdade, eles se ocupam com as mulheres felizes e bem resolvidas, gastam algum tempo com elas, mas os olhos das mulheres tristes e complicadas os prendem, fazem com que eles queiram ficar pra afagar suas cabeças caídas, e logo depois se deleitar em suas silhuetas frágeis e débeis. 


Eu era, naquela tarde, uma mulher excepcionalmente triste. Tinha um aglomerado de problemas me consumindo aos poucos, doses homeopáticas de tristezas ilhadas em mim. Nem o vinho tinha adiantado na noite anterior, pra tanto me dispus que morri em amargas decepções. E no dia seguinte minha cabeça doía, e em meus olhos nadavam densas tristezas. Mesmo assim eu saí para ir na padaria, logo mais tarde eu iria dar aula, porque eu estava num processo de aceitação em ser algo semelhante a uma professora de português, e isso também me doía. E doía porque eu não tinha pretensões furtivas nessa direção; doía porque perseguir sonhos às vezes é aterrorizante; e às vezes por capricho ou acaso você acaba perseguindo o coelho da Alice, mas percebe que quando o encontra ele não é nada daquilo do que você imaginava que fosse. Então a onda do desespero atinge seu peito em cheio, e todas as soluções estão emaranhadas em medo e insegurança, mas só resta a aceitação agora. 

Naquela tarde de um Outubro longo demais, eu pensava o quão arrasada eu estava aos olhos daqueles homens que me despiam com olhares. Até o moço da padaria, que ao fazer uma piada descompensada deu de encontro ao meu riso triste, quase aumenta a quantidade de pães. E os olhos desse homem tinham o brilho dos olhos de lobos famintos. E pelas ruas que andei durante esse dia encontrei os mesmos olhos maliciosos. Eles diziam: que tristeza linda essa em seus olhos, deixe-me entrar e admirá-la de perto.

Os homens, eventualmente, são criaturas vis e infames. Eles escolhem as mulheres tristes, porque as mulheres alegres estão transitando por todo o lugar com risos eufônicos, e elas não se demoram por muito tempo no mesmo lugar, mas as mulheres tristes gostam do refúgio tranquilo da submissão. Naquele dia que fui uma mulher triste, eu queria chorar num lugar escuro, ter os cabelos afagados por mãos que lembrassem proteção. Queria uma voz que entorpecesse meus sentidos, e uma silhueta narcótica que apagasse a agitação em minha mente. 

Quando sou uma mulher alegre, eu mesma me basto em todos os sentidos, minha inclinação é pra céu aberto e eu tenho mania de querer ser pássaro. E os homens que me procuram ficam atracados em um porto distante sem saber me alcançar. Alguns sobem em navios e eu os naufrago, um por um, as vezes me divirto os vendo morrer solitários enquanto tentam se agarrar em seus egos, que parecem boiar, mas são os pesos que os afundam. Quando sou uma mulher alegre, por vezes sou vil e infame, mas não me inclino aos homens tristes a fim de aproveitar-me do estado de fragilidade deles, e isso é o que nos diferencia. 

Agora, sou uma dessas mulheres tristes e cabisbaixas que atraem olhares cobertos de pretensiosas intenções, e só penso em voltar pra casa e me esconder embaixo das cobertas por um tempo que eu não saiba contar. Porque enquanto triste, envergonho a mulher alegre que por vezes sou; enquanto triste sou frágil e vulnerável aos olhos furtivos que me assombram quando passo. 

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