domingo, 18 de outubro de 2015

Um milênio, desde 1990

- Você tem medo. 
- Não é medo.
- E o que é?
- Eu não quero. É só isso.
- Eu não quero me casar com você, menina. Nem amar você,  nem me apaixonar por você. Ok, eu gostaria muito de me apaixonar por você e amar você. 
- Desculpe.
- Não se desculpe. Sério, isso é pior do que me dar um soco no estômago. Sabe de uma coisa? Eu só queria conhecer o cara antes de mim, só isso.
- O cara antes de você?
- É. Queria saber que tipo de cara ele era, e o que ele fez pra deixar você tão covarde. 
- Eu não sou covarde, só não quero engatar um relacionamento agora.
- Mas eu não quero um relacionamento, entenda: quero conhecer você. 
- Posso ser sincera? Eu tenho preguiça de conhecer pessoas, prefiro conhecer a mim mesma e no caminho vou esbarrando com as particularidades alheias. Odeio o ritual dos encontros e da obrigação eterna em impressionar o outro. O primeiro encontro é como uma vitrine, vence quem chamar mais atenção, só que com aquele eufemismo, aquele tom de mistério forçado. Acho bem ridículo, até. 
- Cara, é por isso que eu quero você.  Você não é como nenhuma outra. Sério. 
- Ah, nem vem. Papo de ser única... nem cola.
- Eu, definitivamente, gostaria de conhecer o cara que te bagunçou.
- Que fixação com quem me bagunçou. Eu mesma fiz isso. Essa conversa já deu pra mim.
- Tá ok. Mas eu não vou desistir, você vai ser minha, escreve aí. 
- Não vou ser não.  "Eu sou minha, só minha, e não de quem quiser".
- Feminista agressiva?
- Você está indo por um caminho errado, é melhor parar aí. 
- Certo, certo. Eu só queria ver seu rosto irritado agora. Eu adoro expressões verdadeiras, principalmente quando sou a causa delas.
- Você é um chato. 
- E você é uma chata, mas eu adoro isso.
- Você também é insistente. 
- Muito. Por isso aconselho a senhorita a desistir de me fazer desistir de você, porque eu não vou. 
- Provavelmente eu machucaria bastante seu coração. 
- Acho que não, mas tem aquela frase daquele livro ridículo da menina com câncer: seria uma honra ter o coração partido por você, senhora problema.
- Não me chama disso, sério. E não é um livro ridículo, eu inclusive chorei enquanto lia.
- Ai, acho que me desapaixonei um pouco agora.
- Sério? Então ainda há esperanças. 
- Estou brincando, mas o livro não presta.
- E por que você lembra dessa frase?
- Minha memória é estupidamente ótima. 
- Ok.
- O.k.
(Risos)
- E sim, isso sou eu citando o livro bosta pra você. Pegou o trocadilho?
- Admito, esse foi bom. 
- Ganhei um pouco do seu coração, seja sincera.
- Que chato.
- Apenas aceite, você vai me amar. Independente do que tenha acontecido no passado, e de todas as minhas cantadas ruins (a última onde fiz referência ao livro foi ótima), você vai precisar seguir em frente e abrir a porta pra outro alguém, e eu vou te dar uma forcinha. Mas por hoje não insisto mais, ok?
- Ok.
- O.k.
- Você não existe, cara. 
- Existo sim, desde 1990. Pelo menos nessa vida, porque você viaja no espiritismo, então pra você eu sou o senhor milenar.
- Ok, "senhor milenar". Vou dar uma saída. 
- Quando chegar manda um sinal de vida. 
- Ah, essas coisas fazem com que eu surte.
- Que coisas?
- Satisfações. 
- Ah. Então manda mensagem telepática dizendo se de onde você está consegue ver a lua.
- Tentando ser poético? Porque falhou.
- Ai, cara. Por que tenho que gostar das mais chatas, neuróticas, egocêntricas e problemáticas?
- Não me encaixo em nenhuma dessas características. 
- Ah, e ainda é teimosa. Talvez eu tenha mesmo o coração partido por você, mas você é daquelas que ajudam a limpar a bagunça depois ou vira as costas?
- Não sei.
- Então vou ter que descobrir. 
- Faça como quiser.
- Farei.
- Ok.
- O.k.

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