sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Aos meus caminhos

Quero inventar meu pecado; quero morrer do meu próprio veneno. 

As algemas tilintando em meus pulsos são sinais sutis das guerras que sangrei sozinha. Em meu quintal plantei sementes de sonhos, reguei com lágrimas e suor a terra fértil de meus domínios. As plantas que crescem e vergam com peso dos frutos, são júbilo para meus sentidos; as plantas que morrem esguias e mirradas me calam na meada da noite.

Parti sem rumo e o vento me feriu a face, a sensação do desmazelo era intensa, e mesmo estando submersa em gélidas esferas de desapontamentos, segui adiante. E diante dos meus olhos vi mundos inteiros sucumbirem, mesmo sendo o meu quintal tão pequeno e igual a mil outros quintais; mesmo ele tendo sido único para um forasteiro que passou e me deu sementes, e partiu, e fiquei vendo sua silhueta se distanciando, até perceber que ambos tínhamos partido, mesmo com raras sementes germinando no denso e complicado solo cardíaco. 



Eu vi tudo do meu pequeno pedestal de pequenas e indecisas certezas. Porém, em um dia de pouco sol e muito calor, desci do pódio das inquietações, perguntei ao Oráculo sobre o futuro, e minhas correntes tilintaram duas vezes, porque enquanto eu estivesse olhando pro amanhã, perderia as coisas acontecendo no gerúndio que habitava bem embaixo do meu nariz.

Foi na sombra da grande árvore que dormi e sonhei com o mundo de agora, eu fazia o que queria  e dizia as palavras que nasciam e pulavam pra fora, mesmo estando muitas delas prematuras. Assim fugi da responsabilidade de ser linha reta, fiz enormes círculos indecisos no chão. Encontrei uma montanha e escalei, vi o pôr do sol e era lindo, depois os fogos de artifícios queimaram no céu como breves estrelas caleidoscópicas, apertei meu amuleto conta o peito, lembrei do forasteiro dono de sementes, o seu rosto era só um borrão branco em minha memória, mas eu queria que ele estivesse ali materializado ao meu lado. Vi o sol cair aos poucos e descansar em meu peito, os últimos raios foram absorvidos pelos meus olhos sedentos pela beleza eterna das coisas simples.

Do topo da montanha vi meu pedestal tão pequeno e mirrado ser desfeito pelo vento forte, e todas as coisas que queriam ser arrependimentos seguraram minha mão. O passar dos dias desvinculou seus dedos ágeis, e por tantas vezes eu quis me entorpecer dos atos libidinosos sussurrados em meus ouvidos pelos demônios habitantes de mim mesma.

Chorei nas noites sem lua, e ofendi minhas próprias convicções. Meu espírito tremulou em persistente fragilidade, e mais uma vez procurei o forasteiro das sementes. Me cortou algumas plantas, disse que eram ervas ruins, e que matariam as boas  que davam flores e frutos. Vi algumas de suas plantas terem as folhas queimadas na minha presença, mas ele não se afastou. Deixei que deixasse suas pegadas em meu precioso quintal, como sempre. E nunca quis dizer adeus, mesmo tendo ele ido embora pra nunca mais voltar. Ele queria me ensinar na ausência de si mesmo o quanto eu poderia seguir por mim mesma, mas fiz isso tantas vezes... pena ele só ter visto apenas quando tropecei nas bifurcações dos meus caminhos, porque eram nos tropeços que eu chamava seu nome mais alto. Em sua partida, escondi na gaveta de minha aorta a velha tesoura de cortar laços. Mas as correntes tilintaram e em meu peito apertou a verdade, fria e cortante, sem rodeios, floreios ou piedade. A tesoura foi fechada entre os laços cintilantes de vínculos antigos que reluziam na parede das doces lembranças. Firmou-se o fim do ciclo. Duas lágrimas solitárias nasceram e morreram silenciosas em minha alma. Usei-as para regar as novas mudas que já nasciam leves e livres ao norte de mim mesma. 

Mais ao leste eu ia chegando pra colher o grande fruto plantado há anos atrás. Tinha sido uma longa e tortuosa caminhada até ali, cheia de escolhas e renúncias, dentro dela eu mudei tantas vezes e continuei a mesma em ímpar permanência. O grande fruto brilhava majestoso na cúpula alta dos galhos, os meus dedos já tocavam sua textura viçosa, e do gosto eu sabia: seria dolorosamente saboroso; seria docemente amargo. Eu provaria, novamente, outro grande pedaço de vida. 

Um comentário:

Déborah Arruda. disse...

É quando a minha voz embarga que eu encontro repouso em palavras outras. Obrigada por esse resgate!