sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aos fins do fim

Hoje eu quis outra substância. Algo substancial que subsista em minha sustentável leveza de ser não sendo, ademais, coisa alguma. Quis, e digo agora ainda querendo, um agrado substancialmente de afeto, sendo de tal modo afeto que me afete inexplicavelmente. Quero, nesse traço pequeno de palavra despretensiosa – ser – e em nuvens e retratos nunca pendurados em paredes, meu sorriso despreocupado flutuando entre lugares e avenidas que não habitam seus olhos.

Aceitei sem vontade, e depois de apáticas tentativas vãs de começo e final nenhum, e mil manuscritos com marcas feitas a fogo, seu nome entre as fendas de ferozes e desesperadas mensuras mencionadas e segredadas randomicamente. A lágrima arteira que lambe a face é por falências e desistências arrastadas, e o tempo que chega e se senta no cantinho da sala, fica. Que fique; que leve; que me deixe leve e me leve por aí.



Deixo os planos que nunca materializados, coisas que dizemos dormindo, sonhos sepultados ao amanhecer da mais sutil chama de realidade, somos tudo o que dizemos que não seríamos. Ainda cedo foi selada uma promessa de destino, de eterno, de sinceridade, de grito que gritamos no escuro, pensei que, com essa alma que carrego e esse corpo que me comporta, talvez eu fosse capaz de despedaçar os vitrais desses laços silenciosos que nos envolve, e tudo mais se cortaria –  recortaria meus mais vaidosos caprichos. Vivemos fazendo pactos para que em plenitude solitária nos contemplem sozinhos, mas acompanhados, os terríveis enganos.

O ciclo que fechei, gravado em meu tempestuoso ritual de posse, ruiu em sincrônica cadência. Cair por terra: eis o catalisador para esvair a mediocridade dos dias. E dentro de apelos e desprezíveis insistências, me desfiz por voltas e voltas de ponteiros mudos. Dona do não-lugar habitado por todas as expectativas e vontades inventadas, sem intenção de ser nada além de névoa e neblina. Foi desse jeito, querendo ser fundamento, que me vi fragmentada em pecaminosos enganos. Bastava um sopro de nostálgicas lembranças para reacender as antigas crenças que, agora já cansadas, esvaem-se pagãs.


Em luto e pecado, despindo-me de tantas correntes, deixo. Porque deixar requer muito do que conduz e desdobra o coração, mas coração que já nem bate e nem apanha não se deve nortear em rumo incerto. E pra tal: deixo. De tal modo que o rumo certo se transfigure e se desenrole em frente ao horizonte de meus olhos, e se assim não for, inventarei com doçura e malícia, outro norte, outra bússola, outro. E se num dia despreocupado, vontade eu tiver, reinvento a mim mesma, e mais outros dias que chamarei de meus. Farei da sanidade riso embriagado de loucura, e em meus domínios maravilhosos absurdos irão fluir, assim como fluem despreocupadas regalias. E pra quem vier em brisa leve da manhã, pra quem quiser ficar, digo que meus dedos se fecham em volta, mas logo se abrem; que sou dada aos feitiços de areia fina, grão por grão, dia por dia.   

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