quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Dissolução

Vai sentar no soslaio da porta? Vai ver os gatos brincarem no quintal? E as aves cantarem nas árvores? Vai fechar os olhos? Vai suspirar profundo? E a tempestade de dentro, vai acalmar? Teve tantos nomes, tantos olhos e rostos passaram por suas concepções. Vai lembrar? Vai tentar arrumar a bagunça de dentro? Vai resolver os fragmentos soltos? Vai acalmar a pressa? Vai voltar a escrever com mais destreza? É tão complicado andar por seus labirintos, o jeito com o qual você vai do quente ao frio; o jeito que molda as estruturas e confunde os outros, tão instável, tão perdível.


Ninguém disse pra você levar as coisas tão a sério ou que elas seriam de fácil resolução. Você tem vivido como uma mulher pólvora, uma faísca te consome. Como vai lidar com esse desespero de querer tudo agora? Como vai enganar a ansiedade e a urgência? Esses sonhos que te invadem à noite, por quanto tempo vai ignorá-los? Às vezes fazer o que se quer nem sempre é o melhor a ser feito. E agora, você vai continuar a correr pra lugar nenhum? Andando em círculos emocionais que criou pra si mesma, procurando um sentido para todas as coisas irracionais que tem feito. Nada parece bastar. Desejando abraçar o mundo. Desejando chegar aos lugares. Desejando não silenciar os sonhos, criando uma montanha russa de caprichos pessoais. Quando fixada numa ideia, persiste até não poder mais. Uma teimosia latente pulsando nas veias, o calor da insistência ardendo à pele.

Chegou a hora de se mover. Vai mudar pra caber em algum lugar? Ou vai caber em si mesma com mais afinco? Escolhe a segunda opção, vai. É tão fácil falar assim, se desprender, o auto conselho não é muito eficaz, mas se não decidir o que é melhor pra si mesma, quem vai? As palavras tem o poder da eternidade, deixe-as para a posterioridade do tempo.

Eu quis tocar uma verdade com a fome de um mundo. Queimei dentro dos artifícios que criei. Quis voltar ao tempo em que as coisas eram mais simples e fáceis, me atropelei tantas vezes que não soube contar, mesmo assim continuei beirando o desespero da dúvida; mesmo depois de saber que para algumas pessoas não se tornaria boa o suficiente jamais. Passando pelos testes de preceitos egocêntricos de evolução. Tantas vezes imatura e irracional, e tudo por nutrir uma exacerbada importância ao outro que nunca soube como administrar. O amor idiotiza as pessoas, e faz com que elas se percam de vista, eventualmente. Mas amor não deveria ser assim, isso é mais como um amor humanizado sem aqueles conceitos altruístas inalcançáveis. Eu quis nunca desistir, mas sou eu ou eu mesma, e se é seu próprio eu em jogo, você joga os dados com mais vontade de vencer.

Já olhou em volta e percebeu que gastou energia demais com algo ou alguém que não irá recompensá-lo? Não irá corresponder às suas expectativas, porque na verdade só você esteve nesse não lugar. As suas expectativas são expugnavelmente suas, e ninguém pode mudar isso, a não ser você mesmo. E todo o tempo que você gasta paralisada em questões que você mesma inventa, isso ninguém pode contar. Você olha o outro lado e vê que a ponte que vem de lá é frágil e não se firma. É uma sutil conveniência, hoje ela aparece entre a névoa de suas insistências, mas amanhã ela desaparece como uma ilusão criada por sua própria mente. Você não consegue ver reais intenções. Eis uma condição extremamente inquietante: o medo que o outro tem em te alcançar. A ponte é somente sua, e você pode desconstruí-la para refazê-la em outra direção. Recuar é um direito seu, acredita, algumas pessoas apenas se desconhecem em determinado ponto da vida, e não gastam tanto tempo tentando entender ou solucionar, apenas chamam de vida, deixam as coisas como estão, provavelmente é um dos atos mais sensatos e sadios que essas pessoas podem tomar pra si. Se algumas pessoas fazem isso, então é provável que você consiga fazer também.

Está quase nos vinte e cinco, e tem dado uma aflição danada essa coisa de fazer anos. Mas vamos definir, permitir, decifrar, seguir, persistir, colidir, libertar. Vamos bordar mais verbos nessa tua cabeça de liquidificador. Você que não tem sido cais pra ninguém ancorar, águas turbulentas, mísseis direcionados, afundando navios, mas vai trazer calmaria com a bandeira da resiliência hasteada. Porque sim. E porque está intrinsecamente em você querer muito, e não se contentar com brisa mansa de coisas que poderiam ser ventania, e é assim mesmo que você pode levar adiante, quem quiser chegar, aceita, quem não souber o que fazer, liberta, deixa ir, que é pra arejar a casa; que é pro mar serenar.    

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