quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dos diálogos que

Céu bonito de fim de tarde, o sol tocando o mar clamava preces silenciosas. Os meus olhos com sede de horizontes; os dele pagãos e sós. 
Puxei um fio poético pra ver se ele esticava depois, o vinho ainda gelado, estávamos na segunda garrafa.

- Quando você vê os pássaros voando lá em  cima, imagina que eles estão indo ou voltando? 
Fez-se curto silêncio, ele olhou pra mim, eu olhava o céu, mas o alcançava com o canto do olho.
- Nunca pensei nisso. Pra mim são só pássaros voando. Não sou bom em imaginar coisas. - ele disse, voz meio embargada, era fraco pra vinho.
- Quando eu tinha 16, achava que eles estavam saindo do ninho, partindo em jornadas cheias de aventura. Hoje eu só imagino que eles estão sempre voltando para algum lugar... pra casa, sabe? Acho que isso reflete minhas experiências com o mundo.
Ele riscou um sorriso no rosto, mas seus olhos eram tristes. 
- Você é tão descontraída. Não lembro qual foi a última vez que conversei com alguém capaz de desenrolar certas conversas. Acho que as pessoas esqueceram de como alimentar sonhos, e de como começar conversas leves. Acho que talvez eu tenha me tornado uma dessas pessoas. 
- Acontece. Mas se você consegue sorrir com algo bobo, já é o suficiente pra acender qualquer coisa do lado de dentro.



Ele me encarava, eu mantinha os olhos no horizonte com cores caleidoscópicas.
- Acho que estou me apaixonando. - disse ele, quebrando o silêncio. Já estava um pouco bêbado, eu também, mas não o suficiente. Sua frase me pegou de surpresa, parei de olhar o horizonte e o encarei. Talvez eu tenha sentido um pouco de ciúme, mesmo que nunca tenha tido a intenção de tê-lo só pra mim. A velha mania de possessão - incorrigível e problemática mania. 
- Ainda está no gerúndio, tem salvação. Você pode voltar atrás. Apaixonaaando. - eu disse esticando a palavra, enfatizando sua gravidade. 
Eu só estava sendo um pouco egoísta, não queria que ele fugisse, e sabia que ele iria assim que começasse a dedicar seu tempo a um relacionamento amoroso. Eu seria a amiga que não pode se aproximar demais. 

- Achei que você seria a pessoa que mais me encorajaria. - disse ele num tom calmo. 
- Por que pensou isso? - quis saber. 
- Porque você é assim, fica aí com esse olhar perdido no céu, imaginando destino de passarinho. Achei que seria a maior defensora do amor.
- Eu não tenho nada contra o amor, mas você sabe, todas aquelas histórias que terminam em dor, etc. 
- Eu não sei. Nunca amei ninguém seriamente. 
- Ah. Então você ainda vai chegar lá. - disse uma eu melancólica. Abandonei a taça de vinho, me dava por satisfeita. 

- Seria muito problemático amar você? Quer dizer, eu não me importaria de ter minha estabilidade mental sacudida por sua presença. - falou sorrindo, revezando o olhar entre o vinho e eu.
Dessa vez eu senti uma pontada lá no fundo, daquelas que emudece a alma. Porque em nenhum momento levei em consideração tal possibilidade. Em nenhum momento pensei que ele fosse me colocar em tal posição. E ele ainda estava lá sorrindo, balançando o vinho na taça, acho que tinha exagerado, provavelmente se arrependeria. 

Me olhou nos olhos, fixando o olhar com uma expressão séria. Aí então eu desviei, senti um pouco de desespero. Ele notou, ficou desconfortável. 
- Você acredita que um homem e uma mulher possam mesmo ser amigos sem que isso seja levado para um lado amoroso? - emendou. Estava claramente irritado. 
- Não sei. Pra ser honesta, acho que precisa existir antipatia corporal de alguma das partes para que a amizade seja duradoura sem ultrapassar as linhas. Ou que entre eles haja laços sanguíneos, isso pode ser levado em conta também. Acho que pode ser considerado relativo.
- Que seja. Mas agora você já sabe. Não quero que pense à respeito como se precisasse me dar uma resposta, ou mude o jeito que se posiciona em relação a mim, só quero uma coisa: não me chore dores de outros amores.
- Nunca fiz isso. - contestei.
- Eu sei, mas as vezes sinto como se estivesse precisando fazer. Como se estivesse quase lá. E talvez eu tenha pensado muito em você e em tudo o que você fala e faz, e por isso ficou fácil de ler certas coisas que você vai deixando no ar. Mas eu sou egoísta nesse aspecto, então, por favor, não traga falências amorosas para nossos diálogos, porque isso seria um pé no saco. Imagine que você está apaixonada por mim e eu começo a lamentar sobre outras mulheres que amei. Imagine a sensação. Acho que bebi muito. Foda-se o vinho. Dizem que precisamos de 20 segundos de coragem para fazermos mudanças significativas em nossas vidas, espero que isso esteja certo.
- Acho que 10 segundos é o suficiente. 
- Que seja. Mas qual a chance de você corresponder?
- Não sei. Agora eu não sinto o mesmo, e dizer que mais tarde eu possa sentir é injusto com você. Mas eu gosto da sua companhia, e ficar longe de você me deixaria triste.
- Tudo bem, eu não vou te pressionar, mas vou fazer você se apaixonar por mim. E você vai ser aquela que vai se declarar da próxima vez. 
- O bom é que seu ego é bem pequeno, não é?
- Você ainda não viu nada...
Então nós rimos. Riso leve, meio sem jeito, desses risos que aparecem para que não fiquemos em maus lençóis. 

Ele parecia satisfeito com a confissão. Eu estava sem saber como agir, mas pensei que olhando seu rosto assim sendo flagrado pelos últimos raios solares do dia, talvez fosse um rosto com o qual eu me acostumasse a gostar; um rosto que possivelmente eu pudesse hospedar em meu coração. 

Nenhum comentário: