segunda-feira, 14 de março de 2016

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Em cada coisa nos fragmentamos. Em lugares, em pessoas e, irrefutavelmente, no tempo. O quão verdadeiramente você consegue pertencer a si mesmo?


No fim do dia, olhando paredes e experimentando perguntas densas demais para uma simplicidade caber. As banais inquietações sobre fazer coisas, deixar uma marca, mudar, ser parte de algo maior, experimentar eternidades. Repartindo incertezas sobre a onda tridimensional do tempo que passa, e não nota a sua presença. O quão pretensioso você se permite ser? Qual é o tamanho da sua significância? E se formos crus, a ausência de significado em uma breve existência, não te assusta? As orações para seus deuses silenciosos, elas refletem que desejos secretos? Qual mapa usar para o íntimo de suas mais nobres intenções? E as mais putrefatas delas? Os mapas são tão distintos assim? Os elos que igualam sua existência às outras tantas existências, que textura tem eles? As coisas que sente observando a grandiosidade da natureza, ou a própria pequenez diante do universo, sabe pôr tudo isso em palavras decifráveis? Sabe dar um nome? Contextualizar? Transpassar? 

Quantas pessoas conseguem mergulhar em sua alma? O quanto essas pessoas têm de você? Quantos poderes você deferiu a cada uma delas? Suas alegrias e tristezas provém de que sumo? Do tempo? Do Deus? Da própria mortalidade? Do breve pulsar? O que move seus anseios? Entender a si mesmo é suficiente? A procura é baseada em que trajeto? O sentido da busca tem real sentido? E quem irá significar o real? O ego? O senso comum? O banal? O normal? O formal? O natural? O irreal? O substancial? Quem tem dado cores aos seus caminhos? O quão seus passos são realmente seus? Ao mesmo instante que o coletivo o consome; ao mesmo tempo consumido pelas entranhas de tantos olhos e tantas pernas, o quão solitário é fazer parte disso? O quão solitário é um suspiro de quem pensa não ser compreendido? Quanta ingenuidade é permitida na não-compreensão? 

Já quis atravessar uma lógica? Decodificar uma alma? Quis tocar um mundo e fazer dele o seu próprio mundo? O quão habitável ou inabitável você é? Quanto do infinito consome sua mente? Qual a textura dos pensamentos que circundam seu interior? Onde é o limite do concreto e do irreal em seu subconsciente? Quanta força é dedicada às suas intenções? Elas atravessam lados? Se tornam reais ou vagam no mar de sonhos mortos em seus nostálgicos devaneios? Quanta coragem cresce em seus domínios? Qual é a medida de equivalência entre ela e seus medos? E os monstros que sopram os ouvidos à noite, de onde eles vêm? Serão apenas reflexo do quão vil o "ser" pode "ser"? Quanto pesa a sua dualidade? Quanto se pode ignorar das mazelas propriamente ditas? Quanto se pode ignorar de nós mesmos?  

Eu nunca quis entender o mecanismo tácito tanto quanto desejei transpassar o indizível; tanto quanto quis tocar um desmembramento de puras verdades. Mas tudo é contaminável, uma projeção do que imaginávamos que seria. O que é, difere muito do que de fato é, ou do que pode ser. 

Dentro das possibilidades de tornar-se, o que você tem escolhido é suficiente? Nunca te atormentaram as outras alternativas? As outras coisas que não alcançou? As outras escolhas que você não fez, elas não são atrativas nem nos momentos de deliberada melancolia? Os outros lugares, os outros tempos, os outros deuses, os outros fragmentos nunca fragmentados. Quantas vidas você acredita perpetuar sua existência? Elas serão suficientes? Nos inclinemos ao karma? Nos inclinemos às reencarnações? Até que ponto? Do que é feita a barreira do limite? Sabe discorrer sobre o esqueleto da vida e da morte sem titubear em abismos?

As projeções de outros fragmentos nunca alcançados perambulam instantes de ânsia e ócio. Em segredo, me inspiro na ideia pueril de ser pedaço de estrela num céu sem nome; num céu admirado; num céu inalcançável, uma leve anestesia da realidade. Mesmo que em mim flua a necessidade de alcançar coisas, é como se eu estivesse sempre com os braços dispostos, voltados para alguma direção desconhecida e vaga - sem norte -, quase sempre sem mantimentos suficientes para mantê-los decididos, mas sempre dispostos, sempre tentando segurar algo entre as mãos, eventualmente, deixando algo escapar percebida ou despercebidamente.

No âmago, tudo provém do mistério individual e coletivo: subjetividade e objetividade, anatomia, fisionomia, relações, linguagem, comportamento, senso comum, senso crítico, pensamentos, ideias, palavras, solidão, e todo o punhado de projeções de que acreditamos ser feitos; e todas as coisas com as quais ocupamos o nosso tempo - ou o tempo que acreditamos ser nosso. 

Então me diz: de que é feito o seu mistério?

Um comentário:

Rebeca Postigo disse...

Se eu soubesse a resposta...
A vida e suas facetas são tão complexas...

Fico aqui com os mesmos questionamentos que os citados no seu texto...

Um beijo!!!