quinta-feira, 19 de maio de 2016

Gatos no quintal

Queria fragmentar as coisas. Queria dissecar. Chegar ao cerne. Alcançar uma satisfação que não fosse leviana. Mas se distraía facilmente com os gatos perseguindo gafanhotos no quintal. Os gatos eram naturalmente despreocupados, eles queriam caçar gafanhotos e se divertiam desmembrando os pequenos animais, e para eles não era crueldade, não sabiam o significado de tal palavra, então era só a natureza, e eles aceitavam-na. 

Eis uma das coisas mais difíceis ao ser humano: aceitar sua própria natureza. Mesmo porque isso significaria uma passagem só de ida ao desequilíbrio social, adeus ao bom senso, às regras, às normas, à moral e ética. Seria cômico, se não fosse um pouco trágico, o desmembramento cultural de toda uma espécie que almeja a liberdade enquanto corta suas próprias asas. Mas estão todos cansados das utopias e palavras que enaltecem sonhos mortos, os que sobreviveram, pagaram e ainda pagam preços altíssimos pela coragem de ser exatamente aquilo que se desejou. Fazer-se caber numa forma pré-estabelecida é muito mais simples do que transformar a forma em algo desejável. Então restam os doces felinos sádicos desmembrando gafanhotos em seu quintal, alheios ao mundo, ocupados demais em suas próprias vontades. E uma insana inveja de não ser exatamente como eles. 

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